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ANTHERO DE QUENTAL

ANTHERO Tarquínio de QUENTAL nasceu em 1842. Fez seus estudos em colégio dirigido pelo poeta Antônio F. de Castilho, estudos que depois foi continuar em Lisboa e concluir em Coimbra, por cuja Universidade se formou em direito em 1864. Desde 1860 começou a tornar-se conhecido do público letrado pela publicação de algumas poesias no jornal "O Acadêmico". Em 1863 publicou o poemeto "Beatrice", e no mesmo ano outro folheto de 16 páginas, intitulado "Fiat Lux". Em 1865, porém. é que o nome de Anthero principiou a impor-se nos meios literários de Portugal, não só pela publicação das "Odes modernas" como pelo folheto "Bom senso e bom gosto", que em forma de carta, dirigiu a Antônio F. de Castilho deu origem às celebre "Questão coimbrã". As "Odes modernas" seguiram-se: em 1871 as "Primaveras românticas", em 1866 os "Sonetos completos" e em 1892, já postumamente, os "Raios de extinta luz", poesias inéditas, com outras pela primeira vez coligidas, publicadas e precedidas de um esforço biográfico por Teófilo Braga. Está nestas quatro obras condensada toda a produção poética que nos legou o grande poeta filósofo. Como prosador deixou, entre outros trabalhos, "Portugal perante a revolução de Espanha"(1868), "Discurso sobre as causas da decadência dos povos peninsulares nos séc. XVIII e XIX", "Considerações sobre a filosofia da história literária portuguesa" (1872), "Tendências gerais da filosofia na Segunda metade do século XIX". Etc. Suicidou-se em 1891.


CONSULTA

Chamei em volta de meu frio leito
As memórias melhores de outra idade,
Formas vagas, que às noites, com piedade,
Se inclinam, a espreitar, sobre o meu peito…

E disse-lhes: - No mundo imenso e estreito
Valia a pena, acaso, em ansiedade
Ter nascido? dizei-mo com verdade,
Pobres memórias que eu ao seio estreito…

Mas elas perturbaram-se - coitadas!
E empalidecera, contristadas,
Ainda a mais feliz, a mais serena…

E cada uma delas, lentamente,
Com um sorriso mórbido, pungente,
Me respondeu: - Não, não valia a pena!

VISÃO

Eu vi o Amor - Mas nos seus olhos baços
Nada sorria já: só fixo e lento
Morava agora ali um pensamento
De dor sem tréguas e de íntimos cansaços.

Pairava, como espectro, nos espaços,
Todo envolto num nimbo pardacento…
Na atitude convulsa do tormento,
Torcia e retorcia os magros braços…

E arrancava das asas destroçadas
A uma e uma as penas maculadas.
Soltando a espaços um soluço fundo,

Soluço de ódio e raiva impenitentes…
E do fantasma as lágrimas ardentes
Caíam lentamente sobre o mundo!


CONTEMPLAÇÃO

Sonho de olho abertos, caminhando
Não entre as formas já e as aparências,
Mas vendo a face imóvel das essências,
Entre idéias e espíritos pairando…

Que é mundo ante mim? Fumo ondeando,
Visões sem ser, fragmentos de existências…
Uma névoa de enganos e impotências
Sobre vácuo insondável rastejando…

E dentre a névoa e a sombra universais
Só me chega um murmúrio, feito de ais…
É a queixa, o profundíssimo gemido
Das cousas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim só pressentido…
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