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AUGUSTO DOS ANJOS

Nasceu no "Engenho Pau d'Arco", em Paraíba do Norte a 20 de abril de 1884 e faleceu em 12 de novembro de 1914.

O ÚLTIMO NÚMERO

Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado,
A idéia estertorava-se... No fundo
Do meu entendimento moribundo
Jazia o Último Número cansado.

Era de vê-lo, imóvel, resignado,
Tragicamente de si mesmo oriundo,
Fora da sucessão, estranho ao mundo,
Com o reflexo fúnebre do Incriado.

Bradei: - Que fazes ainda no meu crânio?
E o Último Número, atro e subterrâneo,
Parecia dizer-me: - "É tarde, amigo!

Pois que a minha autogênita Grandeza
Nunca vibrou em tua língua presa,
Não te abandono mais! Morro contigo!"

VERSOS A UM CÃO

Que força pode, adstrita a embriões informes,
Tua garganta Estúpida arrancar
No segredo da célula ovular
Para latir nas solidões enormes?!

Esta obrióxia inconsciência, em que tu dormes,
Suficientíssima é para provar
A incógnita alma avoengo e elementar,
Aos teus antepassados vermiformes.

Cão! - Alma de inferior rapsodo errante!
Resigue-a, ampara-a, arruina-a, afaga-a, acode-a  
A escola dos latidos ancestrais...

E irás assim, pelos séculos, adiante
Latindo a eloquesitissima prosódia
Na angústia breve ditaria dos tempos.
O CAIXÃO FANTÁSTICO
Célere ia o caixão, e, nele inclusas,
Cinzas, caixas cranianas, cartilagens
Oriundas, como os sonhos dos selvagens,
De aberratórias abstrações abstrusas!

Nesse caixão iam talvez as Musas,
Talvez meu Pai! Hoffmânnicas visagens
Enchiam meu encéfalo de imagens
As mais contraditórias e confusas!

A energia monística do Mundo,
À meia-noite, penetrava fundo
No meu fenomenal cérebro cheio...

Era tarde! Fazia muito frio.
Na rua apenas o caixão sombrio
Ia continuando o seu passeio!


Solitário
Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta
Por trás dos ermos túmulos, um dia.
Eu fui refugiar-me à tua porta.

Fazia frio e o frio fazia
Frio era esse que a carne nos conforta...
Cortava assim, como em carniçaria
O aço das facas incisiva corta!

Mais tu cão vieste ver minha desventura,
E eu saí, como quem tudo repele,
- Velho caixão a carregar destroços...

Levando apenas na Triunfal carcassa
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!


CANTO DO ONIPOTENTE

Cloto, Átropos, Tifon, Láquesis, Siva...
E acima deles, como um astro a arder
Na hiper-culminação definitiva
O meu supremo e extraordinário Ser!

Em minha sobre-humana retentiva
Brilhavam, como a luz do amanhecer,
A perfeição virtual tornada viva
E o embrião do que podia acontecer!

Por antecipação divinatória,
Eu, projetado muito além da História,
Sentia dos fenômenos o fim...

A coisa em si movia-se aos meus brados
E os acontecimentos subjugados
Olhavam como escravos para mim!


VANDALISMO
Meu coração tem catedrais imensas
Templos de fixas e longínquas datas
Onde um nume de amor em serenatas.
Careta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais 
E nesses Templos claros e resinhos...

E erguendo os glácios e brandindo as hastes.
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos.

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