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EDGAR ALLAN. POE

Charles Baudelaire

É  um prazer bem grande e bem útil comparar os traços fisionômicos dum grande homem com suas obras. As biografias as notas sobre os costumes, os hábitos, o físico dos artistas e dos escritores sempre suscitaram uma curiosidade bem legítima. Quem não procurou alguma vezes a acuidade do estilo e a nitidez das idéias de Erasmo, no recorte acentuado de seu perfil, o calor e o tumulto de suas obras na cabeça de Diderot e na de Mercier, onde um pouco de fanfarronada se mistura à bonomia; a ironia obstinada no sorriso persistente de Voltaire, sua careta de combate, o poder de comando e de profecia no olhar lançado para o horizonte, e a sólida figura de José de Maistre, águia e boi ao mesmo tempo? Quem não se deu ao engenhoso trabalho de decifrar a COMÉDIA HUMANA, na fronte e no rosto potentes e complicados de Balzac?

Edgar Poe era de estatura um pouco abaixo da média, mas todo o seu corpo era solidamente constituído. Tinha pés e mãos pequenos. Antes de vir a ter sua compleição combalida, era capaz de maravilhosas proezas de força.dir-se-ia que a Natureza, e creio que isso já foi muitas vezes observado, torna a vida bastante dura àqueles de quem deseja extrair grande coisas. De aparência muitas vezes mesquinhas, são talhados como atletas, tão bons para o prazer, como para o sofrimento. Balzac, assentindo aos ensaios de RECURSOS DE QUINOLA, dirigindo-os e desempenhando ele próprio todos os papéis, corria provas de seus livros; ceava com os atores, e quando toda a gente fatigada ia dormir, se entregava ele de novo vivamente ao trabalho. Todos sabem que enormes excessos de insônia e de sobriedade praticou ele. Edgar Poe, na mocidade, se distinguira bastante em todos os exercícios de destreza e de força; isto condizia um pouco com seu talento: cálculos e problema. Um dia, apostou que partiria dum dos cais de Richmond, que subiria a nado umas sete milhas, o rio James e voltaria a pé no mesmo dia. E o fez. Era um dia ardente de verão. Nem por isso passou lá tão mal. Aspecto, gestos, marcha, posição da cabeça, tudo o assinalava, quando se achava ele nos seus bons dias, como um homem de alta distinção. Era marcado pela Natureza, como essas pessoas, que, num grupo, no café, na rua, atraem o olhar do observador e o preocupam. Se jamais a palavra “estranho”, de que tanto se abusou nas descrições modernas, se aplicou bem a alguma coisa, foi certamente ao gênero de beleza de Poe. Suas feições não eram vultosas, mas bastantes regular, a tez dum moreno-claro, a fisionomia triste e distraída, e se bem que não apresentasse, nem o tom da cólera, nem o da insolência, tinha algo de penoso. Seus olhos, singularmente belos, à primeira vista pareciam dum cinzento sombrio, melhor examinados, porém, se mostravam gelados por uma leve tonalidade violeta indefinível. Quanto à fronte era majestosa, não que lembrasse as proporções ridículas que os maus artistas inventam, quando, para lisonjear o gênio, transformaram-no em hidrocéfalo, mas dir-se-ia que uma força interior desbordante impelia para diante os órgãos da perfeição e da construção. As partes a que os craneologistas atribuem o sentido do pitoresco não estavam, no entanto, ausentes, mas pareciam deslocadas, oprimidas, acotoveladas pela tirania soberba e usurpadora da comparação, da construção e da casualidade. Sobre essa fronte tronava também, num orgulho calmo, o sentido da idealidade e do belo absoluto, o senso estético por excelência mau grado todas essas qualidade, aquela cabeça não apresentava um conjunto agradável e harmonioso. Vista de lado, feria e dominava a atenção pela expressão dominadora e inquisitorial da fronte, mas o perfil revelava certas deficiências; havia uma imensa massa de crânio, adiante e atrás, e medíocre quantidade no meio; afinal uma enorme potência animal e intelectual, e uma falha no lugar da venerabilidade e das quantidades afetivas. Os ecos desesperados da melancolia, que atravessavam as obras de Poe, tem um acento penetrante, é verdade, mas é preciso dizer também que é uma melancolia bem solitária e pouco simpática para o comum dos homens.

Tinha Poe os cabelos negros, semeados de alguns fios brancos, grossos bigodes eriçado, que ele esquecia de por em ordem e alisar devidamente.  Trajava com bom gosto, mas negligentemente, como um cavalheiro que tem bem outras coisas que fazer. Suas maneiras eram perfeitas, muito polidas e cheias de segurança. Mas sua conversação merece menção especial. A primeira vez que interroguei um americano a esse respeito, respondeu-me ele, muito: “Oh! Oh! Ele tinha uma conversa que não era lá muito consecutiva!” Depois de algumas explicações, compreendi que Poe dava vastas pernadas no mundo das idéias, como um matemático que fizesse uma demonstração diante de alunos já bem fortes em matemática, e que ele monologava muito. Na verdade, era uma conversa essencialmente nutritiva. Não era um beu parteur, e aliás sua palavra, como seus escritos, tinha horror à convenção; mas um vasto saber, o conhecimento de várias línguas, sólidos estudos, idéias colhidas em vários países, faziam dessa palavra um ensinamento incomparável. Enfim, era um homem para ser freqüentado pelas pessoa que medem sua amizade pelo ganho espiritual que podem auferir duma convivência. Mas parece que Poe tenha sido pouco severo na escolha de seu auditório. Que seus auditores fossem capazes de compreender suas abstrações sutis, ou admirar as gloriosas concepções, que rasgavam continuamente com seus clarões o céu sombrio de seu cérebro, era coisa que não lhe causava preocupação.

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Vou procurar dar uma idéia do caráter geral, que domina as obras de Edgar Poe. Poe se apresenta sob três aspectos: crítico, poeta e romancista; e mais, no romancista há um filósofo. Quando foi chamado para dirigir o MENSAGEIRO LITERÁRIO DO SUL (SOUTHERN LITERRARY MESSENGER), ficou estipulado que ganharia 2.500 francos por ano. Em troca de tão medíocres honorários, deveria encarregar-se da leitura e escolha dos trechos destinados à composição do número do mês, e da redação da parte chamada editorial, isto é, da análise de todas as obras aparecidas e da apreciação de todos os fatos literários. Além disso, contribuiria muitas vezes com um conto ou uma poesia. Durante dois anos, pouco mais ou menos, exerceu essa tarefa. Graças à sua ativa direção e à originalidade de sua crítica, o MENSAGEIRO LITERÁRIO atraiu dentro em pouco todas as atenções. Tenho, diante de mim, a coleção dos números desses dois anos. A parte editorial é considerável; os artigos são bastante longos. Muitas vezes, no mesmo número, encontra-se a resenha dum romance, dum livro de poesia, dum livro de medicina, de física ou de história. Todas são feitas com o maior cuidado, e denotam no autor um conhecimento das diversas literaturas e uma aptidão científica, que recordam os escritores franceses do século XVIII. Parece que durante seus precedentes tempos miseráveis, Edgar Poe havia posto seu tempo a juros e agitado um rol de idéias. Há ali uma coleção notável de apreciações críticas dos principais autores ingleses e americanos, muitas vezes de memória francesas. Donde partia uma idéia, qual era sua origem, seu objetivo, a que escola pertencia ela, qual era o método do autor, salutar ou perigoso, tudo isso era nitidamente, claramente rapidamente explicado. Se Poe atraiu fortemente as atenções sobre si, arranhou também numeroso inimigos. Profundamente penetrado por suas convicções, fez guerra infatigável aos falsos raciocínios, às imitações bobas, aos barbarismos e a todos os delitos literários, que se cometem diariamente nos jornais e nos livros. Desse lado, nada havia a reprochar-lhe. Pregava com o exemplo. Seu estilo é puro, adequado às idéias, dando delas a expressão exata. Poe é sempre correto. Fato bastante assinalável é que um homem de imaginação tão erradia e tão ambiciosa seja ao mesmo tempo, tão amoroso das regras, e capaz de análise estudiosos e de pacientes pesquisas. Dir-se-ia uma antítese feita carne. Sua glória de crítico prejudicou bastante sua fortuna literária. Muitos se quiseram vingar. Não houve censuras que não lhe lançassem mais tarde em rosto, à medida que sua obra se avolumava. Toda a gente conhece esta longa e banal ladainha: imoralidade, falta de ternura, ausência de conclusões, extravagância, literatura inútil. A crítica francesa jamais perdoou Balzac o Grande homem provinciano em Paris.

Como poeta Edgar Poe é um homem a parte. Representa é o primeiro americano que, propriamente falando, fez de seu quase sozinho movimento romântico do outro lado do Oceano. Estilo uma ferramenta. Sua poesia, profunda e gemente, é, não obstante, trabalhada, pura, correta e brilhante, como uma jóia de cristal. Edgar Poe amava os ritmos complicados, e por mais complicados que fossem, neles encerrava uma harmonia profunda. Há um pequeno poema seu, intitulado OS SINOS, que é uma verdadeira curiosidade literária; traduzível, porem não o é, o CORVO logrou vasto êxito. Segundo afirmam Longfellow e Emerson, é uma maravilha. O assunto é quase nada, e é uma pura obra de arte. O tom é grave e quase sobrenatural, como os pensamentos da insônia; os versos caem um a um, como lágrimas monótonas. No PAÍS DOS SONHOS, tentou descrever a sucessão dos sonhos e das imagens fantásticas, que assaltam a alma, quando o olho corpóreo esta cerrado. Outros poemas como ULALUME e ANNABEL LEE gozam de igual celebridade. Mas a bagagem poética de Poe é diminuta. Sua poesia, condensada e laboriosa, custava-lhe, sem dúvida, muito esforço e ele necessitava muitas vezes de dinheiro, para que se pudesse entregar a essa dor voluptuosa e infrutífera.

Como novelista e romancista Edgar Poe é único no seu gênero, como Maturin, Balzac, Hoffmann, cada um no seu. Os variados trabalhos que espalhou em Revistas foram reunidos em dois grupos, um, CONTOS GROTESCOS E DO ARABESCO, o outro CONTO DE EDGAR A. POE, edição Willey e Putnam. Forma tudo em total de setenta e dois trabalhos mais ou menos. Há ali bufonadas violentas, puro grotesco, aspirações desenfreadas para o infinito e uma grande preocupação pelo magnetismo.

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Nele é atraente todas entradas em assunto, sem violência, como um turbilhão. Sua solenidade surpreende e mantém o espírito alerta. Sente-se desde o princípio, que se trata de algo grave. E lentamente, pouco a pouco, se desenrola uma história cujo interesse inteiro repousa sobre um imperceptível desvio do intelecto, sobre uma hipótese audaciosa, sobre uma dosagem imprudente da Natureza no amálgama das faculdades. O leitor, tomado de vertigem, é constrangido a seguir o autor em suas arrebatadoras deduções.

Nenhum homem jamais contou com maior magia as exceções da vida humana e da natureza; - o morrer das estações sobrecarregadas de esplendores enervantes, os climas quentes, úmidos e brumosos, em que o vento do sul amolece e distende os nervos, como as cordas de um instrumento, em que os olhos se enchem de lágrimas, que não vêm do coração; - a alucinação deixando, a princípio, lugar à dúvida, para em breve se tornar convencida e razoadora como um livro; - o absurdo se instalando na inteligência e governando-a com uma lógica espantosa; - a histeria usurpando o lugar da vontade, a contradição estabelecida entre os nervos e o espírito, e o homem descontrolado, a ponto de exprimir a dor por meio do riso. Analisa o que há de mais fugitivo, sopesa o imponderável e descreve, com essa maneira minuciosa e científica, cujos efeitos são terríveis, todo esse imaginário que flutua em torno do homem nervoso e o impelia para a ruína.

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Geralmente Edgar Poe suprime as coisas acessórias, ou pelo menos não lhes dá senão um valor mínimo. Graças a esta sobriedade cruel, a idéia geratriz se torna mais visível e o assunto se recorta ardentemente, sobre esses segundos planos nus. Quando a seu método de narração, é simples. Abusa do eu com uma cínica monotonia. Dir-se-ia que está tão certo de interessar, que pouco se preocupa em variar seus meios. Seus contos são quase sempre narrativas ou manuscritos do personagem principal. Quando ao ardor com que trabalha muitas vezes no que é horrível, observei em muitos homens que isso se deve a uma imensa energia vital sem exercício, por vezes a uma castidade obstinada e também a uma profunda sensibilidade recalcada. A volúpia sobrenatural, que o homem pode experimentar em ver correr seu próprio sangue, os movimentos bruscos e inúteis, os grandes gritos lançados ao ar quase involuntariamente, são fenômenos análogos. A dor é um alívio para dor, a ação repousa do repouso.

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Nos contos de Poe jamais se encontrou amor. Pelo menos, LIGEIA, ELEONORA, não são, propriamente falando, histórias de amor, sendo outra a idéia principal sobre a qual gira a obra. Talvez acreditasse ele que a prosa não é uma linguagem à altura desse estranho e quase intraduzível sentimento; porque suas poesias, em compensação estão fortemente saturadas de amor. A divina paixão nelas aparece magnífica, constelada, e sempre velada por uma irremediável melancolia. Nos seus artigos, fala algumas vezes de amor, como de uma coisa cujo nome faz a pena estremecer. No DOMÍNIO DE ARNHEIM, afirmará que as quatros condições elementares da felicidade são: a vida ao ar livre, o amor duma mulher, o desprendimento de qualquer ambição e a criação dum Belo novo. O que corrobora a idéia da senhora Francês Osgood, referente ao respeito cavalheiresco de Poe pelas mulheres, é que, mau grado seu prodigioso talento para o grotesco e para o horrível, não há em toda a sua obra uma única passagem, que se refira à lubricidade ou mesmo aos prazeres sensuais. Seus retratos de mulheres são, por assim dizer, aureolados; brilham em meio dum vapor sobrenatural e são pintados à maneira enfática dum adorador. - Quanto aos pequenos episódio romanescos, há motivo para espanto que uma criatura tão nervosa, cuja sede do Belo era talvez o traço principal, tenha por vezes, com ardor apaixonado, cultivado a galantaria, esta flor vulcânica e almiscarada, para a qual o cérebro fervente dos poetas é terreno predileto?

Em Edgar Poe, não há choraminguices enervante, mas por toda a parte, incessantemente, o ardor infatigável pelo ideal. Como Balzac, que morreu talvez triste por não ser um puro sábio, tem sanhas de ciência. Escreveu um MANUAL DO CONQUIOLOGISTA. Tem, como os conquistadores e os filósofos, uma aspiração arrebatadora para a unidade; assimila as coisas morais às coisas físicas. Dir-se-ia que procura aplicar à literatura os processos da filosofia, e à filosofia o método da álgebra. Nessa incessante ascensão para o infinito, perde-se um pouco o fôlego. O ar fica rarefeito nessa literatura, como num laboratório: contempla-se aí sem cessar a glorificação da vontade, aplicando-se à indução e à análise. Poe parece querer arrancar a palavra aos profetas e atribuir-se o monopólio da explicação racional. Assim, as paisagens que servem por vezes de fundo a suas ficções febris são pálidas como fantasmas. Poe, que não partilhava das paixões dos outros homens, desenha árvores, ou antes, que se assemelham a sonhos de nuvens e de árvores, ou antes, que se assemelham a seus estranhos personagens, agitadas como eles, por um calafrio sobrenatural e galvânico.

Os personagens de Poe, ou melhor, o personagem de Poe, o homem de faculdades superadas, o homem de nervos relaxados, o homem cuja vontade ardente e paciente lança um desafio às dificuldades, àquele cujo olhar está ajustado, com a rigidez duma espada, sobre objetos que crescem, à medida que ele os contempla, - é o próprio Poe - e suas mulheres, toda luminosas e doentes morrendo de doenças estranhas e falando com uma voz que parece uma música, são ele ainda; ou pelo menos, por suas aspirações estranhas, por seu saber, por suas melancolia incurável, participam fortemente da natureza de seu criador. Quanto à sua mulher ideal, à sua Titânide, revela-se em diferentes retratos, esparsos nas suas poesias pouco numerosas, retratos, ou antes maneiras de sentir a beleza, que o temperamento do autor aproxima e confunde numa unidade vaga mas sensível, e onde vive mais delicadamente talvez que em qualquer parte esse amor insaciável do Belo, que é seu grande título, isto é, a soma de seus títulos à afeição e ao respeito dos poetas

                               O PRINCÍPIO POÉTICO

Não tenciono, ao falar do Princípio Poético, ser completo ou profundo. Enquanto discutir, muito ao acaso, a essência do que chamamos Poesia, meu principal objetivo será citar, para meditá-los, alguns daqueles poemas ingleses ou americanos, de segunda categoria, que estão mais de acordo com meu próprio gosto, ou que mais profunda impressão marcaram na minha imaginação. Por “poemas de segunda categoria” quero significar, sem dúvida, poemas de pequena extensão. E logo de começo, permiti-me dizer algumas palavras, relativas a um princípio um tanto particular que, certo ou errado, sempre influiu na minha própria estimativa crítica do poema. Acho que não existe um poema longo. Sustento que a frase “um poema longo” é simplesmente uma categórica contradição nos termos.

Mas é preciso observar que um poema sé merece este título, enquanto emociona, elevando a alma. O  valor do poema esta na razão desta emoção exaltante. Mas todas as emoções são, mediante uma necessidade psíquica, transitórias. Aquele grau de emoção, que habilitaria um poema a ser assim chamado de qualquer modo, não pode ser mantido em toda uma composição de grande tamanho. Passada uma meia hora, no máximo, ela se abate, falha, segue-se uma reação, e então, com efeito, e de fato, o poema não é mais tal.

Há, sem dúvida, muita gente que tem achado dificuldade em conciliar o aforismo crítico de que o “PARAÍSO PERDIDO” deve ser devotadamente admirado por completo, com a absoluta impossibilidade de manter para isso, durante a leitura, o acervo de entusiasmo que aquele aforismo crítico exigiria. Essa grande obra, na verdade, deve ser tida como poética, somente quando, não levado em conta aquele requisito vital de todas as obras de Arte, a Unidade, nós a encaramos, simplesmente, como uma série de poemas menores. Se, para manter sua Unidade - sua totalidade de efeito ou de impressão - o lemos (como seria necessário) duma assentada, o resultado é apenas uma constante alternativa de emoção  e depressão. Depois duma passagem, que sentimos ser verdadeira poesia, segue-se, inevitavelmente, uma passagem de vulgaridade, que nenhum pré-julgamento crítico pode forçar-nos a admirar; mas se, completado o trabalho, nós o lemos de novo, omitindo o livro primeiro, isto é, começando pelo segundo, ficaremos surpresos por achar, então admirável aquilo que, anteriormente, tanto admiramos. Segue-se de tudo isto que o derradeiro, conjunto ou absoluto efeito, ate mesmo do melhor poema épico sob o sol, é nulo - e é este precisamente o fato.

No que concerne à ILÍADA, temos, se não prova positiva, pelo menos muita boa razão de considerá-la como uma série de líricas; mas, supondo a intenção épica, posso dizer apenas que a obra está baseada num conceito imperfeito de Arte. A épica moderna é apenas uma imitação irrefletida e cega do espúrio modelo antigo. Mas já se foi o tempo dessa anomalia artísticas. Se, a qualquer tempo, algum poema bem longo fosse realmente popular - o que eu duvido - é claro, pelo menos, que nenhum poema bem longo será popular de novo.

Que a extensão duma obra poética é, ceteris paribus, a medida de seu mérito, parece indubitável, quando assim o afirmamos, uma proposição suficientemente absurda - e, no entanto, devemo-la às Revistas Trimestrais. Seguramente não pode haver nada em mero tamanho, abstratamente e considerado - não pode haver nada em mero volume, até onde diz respeito ao volume, que tenha tão continuamente obtido admiração daqueles tristes folhetos! Uma montanha, certamente, pelo simples sentimento da magnitude física que transmite, causa-nos uma sensação do sublime - mas homem algum é impressionado dessa forma, pela grandeza material até mesmo da “COLUMBIADA”. Nem mesmo as Trimestrais nos instruíram para ficar tão impressionados por ela. Ainda mais, não incitaram em que estimássemos Lamartine, a pés cúbicos, ou Pollock, a libras. Mas que outra coisa podemos inferir da contínua tagarelice delas, a respeito do “esforço prolongado”, qualquer cavalheirinho realizou uma epopéia , elogiemo-lo francamente pelo esforço feito - se isso é realmente coisa recomendável - mas privemo-nos de louvar o poema épico, por conta do esforço. É de esperar que o senso comum, nos tempos vindouros, há de preferir pronunciar-se sobre uma obra de arte a fazê-lo sobre a impressão que produz, sobre o efeito que causa, a fazê-lo sobre o tempo que ela leva, para causar o efeito, ou sobre a quantidade de “esforço prolongado”, que foi achado necessário, para efetuar a impressão. O fato é que a perseverança é uma coisa e o gênio outra, completamente diversa - e nem todas as Trimestrais da Cristandade podem confundi-las. A propósito, esta asserção, com muitas outras, sobre as quais venho justamente insistindo, será aceita como evidente por si mesma. No entretanto, por serem geralmente condenadas como falsidades, não serão essencialmente prejudicadas como verdades.

Por outro lado, é claro que um poema pode ser impropriamente curto. A brevidade indevida degenera em simples epigramatismo. Um poema bem curto, embora produza, de vez em quando, um efeito brilhante ou vívido, nunca produz um efeito profundo ou duradouro. Deve ser a firme pressão do sinete sobre a cera. De Beranger lavrou numerosas coisas, acres e espirituosas, mas em geral foram por demais imponderáveis, para se marcarem profundamente na atenção pública, assim, como muitas penas de imaginação, foram elas sopradas para o alto, somente para se perderem no vento.

Um exemplo notável do efeito da brevidade indevida, no comprimir um poema, em afastá-lo das vistas populares, é fornecido pela seguinte pequena, mas delicada SERENATA:

Desperto de sonhar contigo

em meu primeiro sonho brando,

quando tão só suspira o vento

e há mil estrelas cintilando.

Desperto de sonhar contigo

e há um elfo bom, que se desvela

em me levar - quem sabe como?

Querida, até tua janela.

 

Esvaem-se os zéfiros errantes

no silencioso rio tristonho;

foge o perfume da champaca

como as visões doces de um sonho.

Do rouxinol a voz queixosa

morre em seu próprio coração,

como por sobre o teu eu devo

morrer, tão grande é esta paixão.

 

Oh! vem erguer-me do relvado!

Morro, sucumbo, desfaleço!

Que teu amor, em beijos, chova

sobre meus lábios frios, de gesso.

Ai! minha face é fria e pálida,

meu coração bate alto e forte.

De novo, aperta-o junto ao teu,

onde se irá quebra, na morte.

 

Poucos talvez conheçam bem estes versos. Contudo, seu autor é nada mais, nada menos, que um poeta como Shelley. Sua ardente, embora delicada e etérea imaginação será apreciada por todos, mas por ninguém tão completamente, como por aquele mesmo que se ergueu dos doces sonhos de uma bem amada, para banhar-se no ar aromático de uma noite meridional de verão.

Um dos mais belos poemas de Willis, o melhor, na minha opinião, que jamais escreveu, tem sido, por causa desse mesmo defeito da indevida brevidade, mantido fora de sua própria posição, não menos na opinião crítica, que na popular:

“Lançavam-se as sombras ao longo da Broadwy,

                enquanto ia a tarde fugindo;

e ali, vagarosa, uma linda senhora

                passava, a soberba exibindo.

Andava sozinha, mas iam espíritos

                não vistos seus passos seguindo.

 

A paz encantava, sob seus pés, a rua

                e os ares a Honra encantava;

Diziam-na todos tão bela e bondosa,

                ao vê-la, quando ela passava.

Porque tudo quanto lhe deram os Céus,

                com zelo ciumento guardava.

 

Com zelo cuidava de os raros encantos

                a amante fiéis esconder.

Sua alma era fria ao que ouro não fosse.

                Não a iam os ricos querer?

Pois são bem honrados encantos à venda,

                se os padres os vão a vender.

 

Agora, passeia, mais bela, tão frágil,

                de um lírio mostrando o palor;

cortejo invisível, seguindo-a, mergulha

                sua alma, num triste torpor.

Sem nada que a salve, vagueia por entre

                Penúria e Desdém zombador.

 

Nenhuma piedade, hoje, à fronte implorante

                a paz deste mundo vem dar;

pois seu coração fraquejou, quando a prece

                do amor se esvaía pelo ar;

e a culpa que Cristo perdoa nos céus

                os homens não podem perdoar.”

 

Nesta composição achamos difícil reconhecer o Willis, que tem escrito tantos simples “versos de sociedade”. Os versos são, não somente ricos de idéias, mas cheio de energia,  ao passo que respiram um fervor, uma evidente sinceridade de sentimento, que em vão buscamos través de todos os outros trabalhos deste autor.

Enquanto a mania do épico, enquanto a idéia de que para ter mérito em poesia é indispensável ser prolixo, tem vindo nos últimos anos gradualmente desaparecendo da mente do público, por simples força de sua própria absurdez, vemos que lhe sucede uma heresia, palpavelmente demasiado falsa, para ser por mais tempo tolerada, mas que, no breve período que já vem durando, pode dizer-se tem realizado mais, pela corrupção de nossa literatura poética, do que todos seus outros inimigos conjugados. Aludo à heresia do DIDÁTICO. Tem-se suposto, tácita e manifestamente, direta e indiretamente, que o objetivo último de toda Poesia é a Verdade. Todo poema, diz-se, deveria inculcar uma moral, e por esta moral é que deve ser julgado o mérito poético do trabalho. Nós, americanos, temos principalmente, patrocinado esta feliz idéia, e nós, bostonianos, mui especialmente, a temos desenvolvido em cheio. Metemos em nossas cabeças que escrever simplesmente um poema e confessar que tal foi o nosso desígnio, seria confessar-nos radicalmente carentes da verdadeira dignidade e força poéticas: - mas o simples fato é que se nos permitíssemos olhar para dentro de nossas próprias almas, descobriríamos imediatamente ali, que, sob o sol, nem existe, nem pode existir qualquer trabalho mais inteiramente dignificado mais supremamente nobre, do que este mesmo poema, este poema per se este poema que ;e um poema e nada mais, este poema escrito somente por ele mesmo.

Com uma reverência tão profunda pela Verdade, como jamais animou o peito de um homem, eu limitaria, não obstante, até certo ponto, seus modos de revelação. Eu os limitaria para reforçá-los. Não os enfraqueceria para dissipação as exigências da Verdade são rigorosas. Ela não tem simpatia pelos louros. Tudo aquilo que é tão indispensável na Canção , é precisamente tudo aquilo com que ela nada tem que fazer  de qualquer forma. É apenas fazer dela um vaidoso paradoxo, envolvê-la em flores e pedras preciosas. Pondo em vigor uma verdade, necessitamos mais de severidade do que de eflorescência de linguagem. Devemos ser simples, preciso, tersos. Devemos ser frios, calmos, impassíveis. Numa palavra, devemos conservar-nos naquela maneira que, o mais aproximadamente possível, é o oposto exato do poético. Deve ser cego de fato quem não percebe a diferença radical e abismal, que existe entre as maneiras verídicas e poética de revelação. Deve ser teórico-maníaco sem remédio quem, a despeito desta diferenças, persiste ainda em tentar conciliar os óleos e águas adversos da Poesia e da Verdade.

Dividindo o mundo do pensamento nas suas três mais evidentes distinções, temos o intelecto Puro, o Gosto e o Senso Moral. Coloco o Gosto no meio, porque é justamente esta posição que ele ocupa no pensamento. Mantém íntimas relações com ambos os extremos; mas está separado do Senso Moral, por tão fraca diferença, que Aristóteles não hesitou em colocar algumas de suas operações entre as próprias virtudes. Não obstante, achamos que os ofícios do trio estão marcados por suficiente distinção. Assim como o Intelecto se liga à Verdade, da mesma forma o Gosto nos põe em relação com a Beleza, ao passo que o Senso Moral se relaciona com o Dever. Deste último, enquanto que a Consciência ensina a obrigação, e a Razão a conveniência, o Gosto se contenta com exibir os encantos, sustentando guerra contra o Vício, apenas no que se refere à sua deformidade, à sua desproporção, à sua animosidade contra o adequado, o apropriado, o harmonioso, em uma palavra, contra a Beleza.

Um instinto imoral bem profundo no espírito do homem é, dessa forma, plenamente, um senso do belo. É ele que dirige, para deleite seu as múltiplas formas, sons, odores e sentimentos, entre os quais vive. E justamente como o lírio se reflete no lago, ou os olhos de Amarilis no espelho, da mesmo forma é a simples repetição oral ou escrita, dessas formas, sons, cores, odores e sentimentos, uma dupla fonte de deleite. Mas esta simples repetição não é poesia. Quem cantar simplesmente, embora com inflamado entusiasmo, ou embora com vida veracidade de descrição, as paisagens, os sons, os odores, as cores e os sentimentos que o põem em comum com toda humanidade, - esse alguém, digo eu, ainda não conseguiu provar seu divino título. Há ainda algo na distância, que ele não foi capaz de atingir. Temos ainda uma sede insaciável, para aplacar a qual não nos mostrou ele as fontes cristalinas. Esta sede pertence à imortalidade do Homem. É, ao mesmo tempo, uma conseqüência e uma indicação de sua perene existência. É o anseio da mariposa pela estrela. Não e uma mera apreciação da Beleza, que está diante de nós, mas um violento esforço, apara atingir uma porção daquela Beleza,  cujos verdadeiros elementos só à eternidade pertençam . e assim quando pela Poesia, ou pela Música, o mais arrebatador dos meios poéticos, nos achamos a chorar, choramos então, não como supõe o Padre Gravina, por excesso de prazer, mas por certo impaciente e acre pesar, diante de nossa incapacidade de apreender agora, inteiramente, aqui na terra, imediatamente e para sempre, aquelas divinas e arrebatadoras alegrias, das quais, por meio do poema, ou por meio da música, perdemos apenas breves e indeterminados vislumbres.

A luta por apreender a superna Beleza - esta luta, na parte das almas para isso apropriadamente constituída tem dado ao mundo tudo aquilo quanto tem sido ele sempre capaz de, ao mesmo tempo, compreender e sentir como poético.

O Sentimento Poético, sem dúvida, pode desenvolver-se de vários modos - na Pintura, na Escultura, na Arquitetura, na Dança - muito especialmente na Música - e muito peculiarmente, com vasto campo, nas composição do Ajardinamento Paisagístico. Nosso tema presente, porém, só se relaciona com a sua manifestação em palavras. E aqui, permiti-me que fale em síntese, sobre a questão do ritmo. Contentando-me com a certeza de que a Música, em seus vários modos de metro, ritmo e rima, é de tão grande importância na Poesia, que nunca poderá ser sabiamente rejeitada, é tão vitalmente auxiliar dela, que se torna simplesmente tolo quem declina de sua assistência - não vou deter-me agora, para assegurar sua absoluta essencialidade. É na Música, talvez, que mais de perto a alma atinge o grande fim pelo qual luta, quando inspirado pelo Sentimento Poético - a criação da superna Beleza. Pode-se dar, realmente, que aí esse sublime fim seja, de vez em quando, atingido de fato. Somos muitas vezes levados a sentir, com prazer calafriante, que de uma harpa terrena irrompem notas que não podem deixar de ser familiares aos anjos. E assim pouca dúvida pode existir de que, na união da Poesia com a Música, em seu sentido popular, encontremos o mais vasto campo, para o desenvolvimento poético. Os velhos Bardos e Menestréis tinham vantagens que não possuímos - e Tomaz Moore, cantando suas próprias canções, estava, pelo modo mais legítimo, aperfeiçoando-as como poemas.

Recapitulemos, então: Eu definiria, em suma a Poesia de palavras como A Criação Rítmica da Beleza. Seu único árbitro é o Gosto. Com a Inteligência, ou com a Coincidência, ela só tem parentesco catedral. E, a não ser incidentalmente, não se relaciona, de modo algum, com o Dever ou com a Verdade.

Poucas palavras, porém, de explicação. Aquele prazer que é ao mesmo tempo, o mais puro, o mais levado e o mais intenso, deriva-se, asseguro, da contemplação do Belo. Somente na contemplação da Beleza achamos possível atingir aquela elevação aprazível da alma, que denominamos Sentimentos Poético e que tão facilmente se distingue da Verdade, que é a satisfação da Razão, ou da Paixão, que é o excitamento do coração. Digo que a Beleza, portanto - usando a palavra como abrangendo o sublime - digo que a Beleza é  o domínio do poema, simplesmente porque é regra evidente de Arte que os efeitos deveriam jorrar, tão diretamente quanto possível, de suas causas: e ninguém foi ainda suficientemente imbecil, para negar que a elevação particular em apreço, é pelo menos mais facilmente atingível no poema. De modo algum se segue, porém, que os incitamentos da Paixão, ou os preceitos do Dever, ou mesmo as lições da Verdade, não possam ser introduzidos num poema, e com vantagem; pois eles podem auxiliar, de vários modos, as finalidades gerais do trabalho: mas o verdadeiro artista sempre se esforçará por harmonizá-los, na sujeição conveniente aquela Beleza, que é a atmosfera e a essência real do poema.

Não posso introduzir melhor os poucos poemas, que apresentei à vossa consideração, do que pela citação do Proêmio ao “Extraviado” de Longfellow:

O dia findou-se e a noite

solta das asas a treva,

como plumas desprendida

da Águia que, em vôo, se eleva.

 

Contemplo as luzes da aldeia,

entre a chuva e a bruma e, triste,

um sentimento se apossa

da alma, que não lhe resiste.

 

Sentimento de tristeza

e anseio, não de pesar,

que só como a névoa à chuva

pode à dor se comparara,

 

Vem ler-me algum poema simples,

gemido do coração,

que afaste os cuidados diurnos

e acalme a inquieta  aflição.

 

Não dos velhos grandes mestres,

dos bardos de excelsa glória,

cujo passo ecoa, eterno,

nos corredores da História.

 

Com o poder de murchas bélicas,

eles nos evocam à alma

a luta sem fim da vida:

e esta note almejo a calma.

Lê canções de um poeta humilde,

brotadas do peito, tanto

como a chuva dentre as nuvens,

ou das pálpebras o pranto.

 

De alguém que, em noites insones

e por laboriosos dias

ainda, na alma, ouve a música

de mágicas melodias.

 

Tais cantos podem dar calma

à aflita preocupação,

descendo como uma benção

que se sucede  à oração.

 

De teu livro favorito

lê o poema que amas, após,

cansado às rimas do poeta

a beleza de tua voz.

 

A noite encher-se-á de música

e os cuidados do presente,

dobrando as tendas, quais nômades,

fugirão, silentemente.

 

Se grande amplitude de imaginação, esses versos tem sido justamente admirados por sua delicadeza de expressão. Algumas das imagens são de muito efeito. Nada pode ser melhor do que

…bardos de excelsa glória

cujo passo ecoa, eterno,

nos corredores da História.

 

A idéia do último quarteto é também de grande efeito. O poema em conjunto, porém deve ser principalmente admirado pela insouciance de seu metro, tão bem de acordo com o caráter dos sentimento e especialmente pela facilidade da maneira geral. Essa “facilidade”, ou naturalidade, num estilo literário, foi muito tempo moda encará-la como fácil, só na aparência, como um ponto realmente difícil de alcançar. Mas não é assim: uma maneira natural só é difícil par aquele que nunca teve naturalidade: para o não-natural. Somente como resultado de escrever com a compreensão ou com o instinto, é que o tom, na composição, sempre será aquele que a massa da humanidade prefere - e que deve perpetuamente variar, sem dúvida, com o momento. O autor que, segundo o modelo da “Norh American Reviw”, fosse, em todas as ocasiões, simplesmente “sereno” necessariamente deveria ser, em muitas ocasiões, simplesmente tolo , ou estúpido; e não tem mais direito a ser considerado, como “fluente” ou “natural”, do que um “cockney” esquisito, ou a Beleza que dorme nas figuras de cera.

Entre os menores poemas de Bryant, nenhum tanto me impressionou, como o que se intitula “junho” e de que citarei apenas uma parte:

Lá, pelas longas horas de verão

entender-se-ia a luz dourada

e, dentre a espessa relva, a floração

pompearia, em beleza imaculada.

 Uma ave, de seu ninho, contaria

sua história de amor à minha lousa fria

e ali repousaria

a ociosa borboleta, entre o rumor

da abelha atarefada e o beija-flor.

 

 

E se o alegre clamor do meio-dia

                lá da aldeia chegar,

ou a canção das virgens, sob o luar,

                linda e repleta de magia?

E se noivos, à luz do sol poente,

amorosos, passearem, bem à frente

                de minha campa fria?

Som  ou cena mais triste (eu bem quisera) nesse

doce local jamais se conhecesse!

 

Bem sei, que ver não poderia

                o esplendor da estação;

sua luz para mim não brilharia,

                nem lhe ouviria a singular canção.

Mas, se onde eu estivesse a repousar,

aqueles que amo, fossem a chorar,

                nenhum partir desejaria.

Presos da luz, do canto, e das flores, e do ar,

junto a essa tumba havia de fica.

 

Tudo isso lhes traria ao peito enternecido

                o pensamento do que havia sido;

falaria de alguém que não podia estar

                o encanto de tal cena a partilhar;

de alguém a quem só resta

da riqueza estival dos outeiros em festa

                um sepulcro de verde revestido.

E ouvir-lhe novamente a voz, viva, seria

                para eles, então, a maior alegria.

 

A fluência rítmica, aí, é mesmo voluptuosa. Nada podia ser mais melodioso. Esse poema sempre  me impressionou de maneira notável. A intensa melancolia, que parece abrir caminho à força, até a tona de todas as carinhosas palavras do poeta, acerca de seu túmulo, faz-nos estremecer no íntimo da alma, ao mesmo tempo que nesse estremecimento existe a mais verdadeira elevação poética. A impressão deixada é a de uma agradável tristeza. E se, nas composições restantes que vos apresentarei, houver tons mais ou menos similares, sempre evidentes, permiti-me lembrar-vos que (como ou por que, não o sabemos) essa certa tonalidade de tristeza liga-se inseparavelmente a todas as mais elevadas manifestações da verdadeira Beleza. Ela, não obstante, é

Sentimentos de tristeza

e anseio, não de pesar,

que só como a névoa à chuva

pode à dor se comparar.

A tonalidade de que falo, claramente se percebe, mesmo num poema tão cheio de brilho e espírito, como “À Saúde”, de Edward Coate Pinckney:

A minha taça ergo, em louvor

                daquela em quem é tudo belo,

e para todas as mulheres

                serve, parece, de modelo;

pois dos melhores elementos

                e das estrelas recebeu

forma tão linda, que é como o ar,

                menos da terra que do céu.

 

Tudo o que diz é musical

                como, na aurora, a voz das aves.

E no que fala há algo mais

                que as melodias mais suaves:

algo que é voz do coração

                e de seus lábios sempre cai,

tal como a abelha, carregada

                de doce mel, das rosas sai.

 

São seus afetos pensamentos

                marcando as horas que se vão;

seus sentimentos têm fragrância,

                maciez de flores em botão;

e ela parece tanto a empolgam

                paixões e amores, tão mudados,

ser, vez a vez, a imagem deles,

ídolo de anos já passados.

 

Da linda face, um breve olhar

                grava na mente uma impressão;

e o eco eterno de sua voz

                nunca sairá do coração;

mas a lembrança, como em mim

                dela ficou, é tão querida

que ao ver a morte, a última queixa

                é por perdê-la e não à vida.

 

A minha taça ergo, em louvor

daquelas em quem é tudo belo

e, para todas as mulheres

serve, parece, de  modelo.

A ela, um brinde. E se na terra

outras houvesse a ela iguais,

seria a vida só poesia

e o tédio um nome e nada mais,

O infortúnio do Sr. Pinckney foi ter nascido muito no sul. Tivesse ele sido da Nova Inglaterra, e é provável que estivesse

classificado como o primeiro dos líricos americanos, por aquele magnânimo cabalista que, por tanto tempo, controlou os destinos das Letras Americanas, dirigindo a coisa chamada “The North Amercican Rewiew”. O poema, acabado de citar, é especialmente belo; mas a elevação poética que dele se extrai, provém principalmente de nossa simpatia pelo entusiasmo do poeta. Perdoamos suas hipérboles, pela evidente avidez com que foram proferidas

De modo algum era meu desígnio, porém, demorar-me sobre os méritos do que vos iria ler. Eles necessariamente falariam, por si mesmos. Boccalini, em seus “Anúncios do Parnaso”, fala-nos que Zoilo, certa vez, apresentou a Apolo uma crítica muito cáustica, sobre um livro realmente admirável; então o deus perguntou-lhe  pelas belezas da obra. Replicou ele que só se ocupava com os erros. Ouvindo isso, como recompensa, Apolo entregou-lhe um saco de trigo não joeirado e ordenou-lhe que retirasse toda a palha.

Ora, esta fábula é uma boa sugestão para os críticos; mas, de modo algum, estou certo de que o deus tivesse razão. Igualmente, não estou certo de que os reais limites do dever de criticar não sejam grosseiramente confundidos. A excelência, especialmente de um poema, pode ser considerada com um axioma, que só necessita ser apresentado, para tornar-se evidente por si mesmo. Se necessita de ser demonstrada como excelência, não é excelência; e assim, apontar, com demasiada particularidade, os méritos de uma obra de arte, é o mesmo que admitir que não são completamente méritos.

Entre as “Melodias” de Tomas Morre, há uma cujo caráter saliente, como real poema, parece ter sido singularmente posto de lado. Refiro-me àqueles versos que começam: “Vem, repousa em meu peito”.

A intensa energia de sua expressão não é ultrapassada por qualquer coisa de Byron. Em dois desses versos se encerra um sentimento, que incorpora a total totalidade da paixão divina do Amor. Sentimento que, talvez, encontrou seu eco, em numero muito maior de corações humanos apaixonados, do que qualquer outro simples sentimento, alguma vez corporificado em palavras:

 

Vem, repousa em meu peito

minha corça alanceada,

embora os teus fugissem,

inda aqui tens morada;

inda tens o sorriso

sem nuvens, refulgente

e um braço e um coração,

só teus, eternamente

 

Oh! para que foi feito

o amor, se muda tanto,

na glória e na vergonha,

na alegria e no pranto?

Não sei e não pergunto

se é teu peito culpado;

só sei que te amo, seja

qual for o teu passado.

 

Chamaste-me teu anjo

em felizes momentos,

e teu anjo serei,

em meio a estes tormentos.

A salvar-te, entre incêndios

impávido, eu te sigo,

e te defenderei, ou morrerei contigo.

 

Tem sido moda, nos últimos tempos, negar a Imaginação de Moore, embora concedendo-lhe Fantasia, distinção que se originou com Coleridge, que, mais do que ninguém, compreendeu amplamente os grandes poderes de Moore. O fato é que a fantasia desse poeta, tão predominante sobre todas as suas outras faculdades e sobre a fantasia de todos os outros homens, produziu, muito naturalmente, a idéia de que ele era somente fantasioso. Mas nunca houve maior engano. Nunca mais vasto mal se fez à fama de um verdadeiro poeta. Nos limites da língua inglesa, não posso recordar poema mais profundamente, mais magicamente imaginativo, no melhor sentido, do que os versos que começam por “Quisera estar junto ao tristonho lago”, que são uma composição de Tomaz Moore. Lastimo que seja incapaz de rememorá-los.

Um dos mais nobres - e, falando de Fantasia - um dos mais singularmente fantasiosos dos modernos poetas, foi Tomaz Hood. Seu “Bela Inez” sempre  teve para mim indizível encanto:

 

Não vistes Inez, tão linda?

Ela foi para o Ocidente

cintilar ao sol poente,

repouso ao mundo roubando;

levou nosso dia e ainda

o sorriso mais amado,

pérolas no seio e, ornado

de aurora o rosto brilhando.

 

Volta, O’ bela Inez, que, escura,

a noite já se insinua.

Vem, antes que a estrela e a lua

sem rivais possam brilhar.

Qual não seria a ventura

de quem, à sua luz, passeasse,

sorvendo amor em tua face…

Nem mesmo eu o ouso pensar!

 

Ah! Bela Inez, quem me dera ser fidalgo galante

que a teu lado vai, radiante,.

Bem de perto, a sussurrar!

Não teria ele sincera

afeição, mulheres magas,

para vir, cruzando as vagas,

a mais bela conquistar?

 

Adorada Inez, em sonhos,

descendo a praia eu te vejo;

segue-te nobre cortejo

com bandeiras à tua frente

jovens gentis e risonhos

plumas de neve exibindo;

teria sido um sonho lindo,

não fora um sonho somente.

 

Sim, ai de nós, bela Inez!

Ela se foi com canções,

com gritos de multidões, música sob seus pés.

Mas a alguns, tristes, tal canto

é torturante é infeliz,

pois “adeus, adeus!” só diz

àquela que amavam tanto!

 

Adeus! Adeus, bela Inez

nunca tão leve dançou

esse navio, nem levou

mais beleza em seu convés.

Ai! Porque o prazer do mar

da praia é a desolação!

E o riso que um coração

encanta, outros vai quebrar!

 

“A Casa Assombrada”, do mesmo autor, é um dos mis verdadeiros poemas jamais escritos: um dos mais verdadeiros, um dos mais correntes, um dos mais inteiramente artísticos, tanto pelo tema, como pela execução. É ele, ademais, poderoso de idéia, imaginativo. Lastimo que sua extensão o torne impróprio para os fins desta conferência. Em lugar dele, permiti-me oferecer-vos o universalmente apreciado “Ponte dos Suspiros”:

A mais mal aventurada,

exausta de respirar,

loucamente alucinada

a morte foi encontrar!

 

Recolhei-a com cuidado,

levantai-a com ternura;

seu corpo é tão delicado,

de tão jovem formosura!

 

Contemplai o seu vestuário

que adere como um sudário;

caem-lhe do traje molhado

mil gotas, como quem chora;

recolhei-a sem demora,

com amor e sem enfado.

 

Não a toqueis com desdém;

pensai nela com pesar,

com doçura e humanidade;

não cuideis se pode errar

pois ela agora só tem

pura feminilidade.

 

Que a ninguém sabe importe

porque assim se revoltou,

temerária e loucamente;

toda a desonra passou;

nela, agora, deixa a Morte

o que era belo somente.

 

Se caiu (era lembrai-vos

filha de Eva), silenciai.

Dos pobres lábios, os laivos

de limo e lodo limpai.

 

Arranjai-lhe seu cabelo

revolto, castanho e belo,

quando, atônitos, ao vê-lo,

permaneceis a indagar

onde seria seu lar.

 

Quem era seu pai? Quem era

sua mãe? Teria um irmão?

Teria irmã? Ou tivera

alguém, a quem mais quisesse

do que a todos, que estivesse

mais perto do coração?

 

Ai de nós! É coisa rara

encontrar a caridade

cristã sob a luz solar!

Que desgraça! Ela habitara

a populosa cidade

sem possuir qualquer lar.

 

Para ela não existia

qualquer carinhoso afeto

de pai, mãe, irmão dileto.

O amor, com cruel evidência,

abandonara seu teto.

Até mesmo a providência

ser-lhe estranha parecia.

 

Junto aos lampiões que, num fio

trêmulo, seguem o rio,

ante as mil luzes de cada

janela e cada postigo,

do porão à água furtada,

ele, de pé, torturada,

não tinha noturno abrigo.

 

O vento de março, frio,

a fazia estremecer;

não assim o arco sombrio

nem o negro rio profundo.

Pela vida alucinada,

só queria descer

pelos enigmas da morte;

ansiosa por ser levada

para onde o Fado a transporte,

para longe deste mundo!

 

E mergulhou sem temer,

desafiando a água gelada,

rude, do rio a correr.

Homem devasso, tal cena

imagina, ali passada,

e vê se podes ousar

lavar-te na água serena,

nela tua sede saciar.

 

Recolhei-a com cuidado,

levantai-a com ternura.

Seu corpo é tão delicado,

de tão jovem formosura!

 

Antes que em mármore o gelo

lhe torne rijos os braços,

cruzai-os decentemente,

arranjai-os com desvelo,

e fechai-lhe os olhos baços

que vos fitam, cegamente!

 

Abertos num espantoso

olhar parado, a fitar,

assim como o último olhar

do desespero audacioso

no futuro a se fixar.

 

E teve morte sombria,

repelida pela fria,

atroz desumanidade,

com seu repouso desfeito

 

pela cruciante maldade.

Cruzai-lhe as mãos sobre o peito,

como se, humilde, estivesse

numa silenciosa prece,

 

a confessar, penitente,

sua conduta culpada,

a alma, que pecou, confiada

ao Salvador, docemente!

 

O vigor desse poema não é menos notável do que seu sentimento. A versificação, embora conduzindo o fantasioso para os próprios limites do fantástico, não obstante se adapta admiravelmente à selvagem insânia que è a tese do poema.

 

Entre os poemas menores de Lord Byron, encontra-se um, que nunca recebeu dos críticos o louvor que, indubitavelmente, merece:

 

Embora finde o dia de meus fados

e a estrela do destino busque o poente,

teu suave coração não vê pecados

onde podia achá-los tanta gente;

de meu pesar tua alma partilhou,

embora bem soubesse o que sofri,

e o amor, que meu espírito sonhou,

nunca o pude encontrar senão em TI.

 

Quando o mundo sorri, em meu redor,

o último riso que responde ao meu

não creio que ele seja enganador,

pois me vem recordar o riso teu;

e quando os ventos lutam contra o mar,

como em minha alma os sentimentos, se

uma emoção a vaga despertar

é só porque me afasta assim de TI.

 

Se a rocha da esperança derradeira

se rompe e afunda em meio aos vagalhões,

sinto que a alma não mais é prisioneira

da dor - e está liberta dos grilhões.

Muitas angústias vêm a perseguir-me;

talvez me esmaguem; não me infamarão;

se me infligem torturas, serei firme;

é em TI que agora penso - nelas, não.

 

Embora humana, tu não me enganaste;

mulher, não me quiseste abandonar;

se caluniada, nunca vacilaste;

amada, não causaste meu pesar;

confiante, não deixaste de querer-me;

afastada, não foi para fugir-me,

nem vigilante, para maldizer-me,

ou muda, por que a injúria se confirme.

 

Minha alma não despreza nem censura

que no mundo um só lute contra tantos.

Se não podia amá-lo, foi loucura

não ter antes fugido a seus encantos.

E se essa falta me saiu mais cara,

do que avaliar outrora eu pude, vi

que tudo quanto assim me aniquilara

nunca me poderá privar de TI.

 

Das ruías do passado perecido

muito, ao menos, eu posso recordar:

aprendi que o que me era mais querido

não merecia tanto o fosse amar.

No deserto, uma fonte está jorrando;

no vasto ermo, inda uma árvore sorri;

e há um pássaro na solidão cantando,

que fala ao meu espírito de TI.

 

Embora o ritmo aqui seja um dos mais difíceis, a versificação dificilmente poderia ser melhorada. Nenhum tema mais nobre jamais ocupou a pena do poeta. É a idéia exaltadora da alma, que nenhum homem pode considerar-se autorizado a queixar-se da Sorte, enquanto na sua adversidade ainda retém o firme amor da mulher.

De Alfredo Tennyson, embora com perfeita sinceridade, eu o encare como o mais nobre poeta jamais existente, reservei tempo para citar apenas um bem curto espécime. Eu o chamado e penso que ele é o mais nobre dos poetas não porque as impressões que ele produz são em todas as ocasiões as mais profundas - não porque a emoção poética, que ele causa, é todas as vezes a mais intensa - mas porque é todas as vezes mais etérea - em outras palavras, a mais elevada e a mais pura. Nenhum poeta é tão pouco da terra, material. O que vou ler, é do seu… longo poema, “A Princesa”:

 

Lágrimas ociosas (que me dizem elas?)

vindas de um divino, fundo desespero,

saem do coração, reúnem-se  nos olhos,

contemplando alegres campos outonais

e lembrando os dias que não voltam mais.

 

Suaves como a luz da aurora, que ilumina

velas que aos amigos trazem de além-mar;

tristes como a luz do poente, que rubora

velas que se somem, longe, com o que amamos;

são assim os dias que não voltam mais.

 

Tristes, singulares, como em madrugadas

de verão, sombrias, os primeiros cantos

de aves mal-despertas soam nos ouvidos

moribundos, quando, aos olhos moribundos,

fraca, a luz esboça a forma do postigo;

são assim os dias que não voltam mais.

 

Caros como o beijo vivo além da morte,

doces como o beijo que, sem esperança,

cremos ver nos lábios a outrem destinados;

tão intensos como o amor, o amor primeiro,

loucos de saudades, morte em plena vida,

são assim os dias que não voltam mais.

 

Assim, embora de maneira bem superficial e imperfeita, tentei transmitir-vos minha concepção do Princípio Poético. Tem sido meu propósito sugerir que, enquanto estes próprio Princípio é estrita e simplesmente a Aspiração Humana pela Beleza Suprema, a manifestação do Princípio é sempre encontrada em uma exaltante emoção da alma, completamente independente daquela paixão, que é a embriaguez do Coração, ou daquela verdade, que é a satisfação da Razão. Porque a respeito da paixão, ai! sua tendência é, antes para degradar, que para elevar a Alma. O Amor, pelo contrário - o Amor - o verdadeiro, o divino Eros - o Uraniano tão distinto da Vênus Dioneana - é, inquestionavelmente, o mais puro e o mais verdadeiro de todos os temas poéticos. E quando à Verdade, se, para falar a verdade, mediante a consecução duma verdade, somos levados a perceber uma harmonia, onde nenhuma apareceria antes, experimentamos imediatamente o verdadeiro efeito poético; mas este efeito é referente à harmonia somente, e não, no mínimo grau, à verdade, que simplesmente serviu, para tornar manifesta a harmonia.

Obteremos, porém, mais imediatamente uma distinta concepção do que é a verdadeira Poesia, pela simples referência a alguns dos elementos simples, que produz no próprio Poeta, o verdadeiro efeito poético. Ele reconhece a ambrósia, que nutre sua alma, nos cintilantes orbes, que brilham no firmamento, nas volutas da flor, no agrupamento de baixos arbustos, no ondular das searas, na inclinação das altas árvores orientais, na distância azulada das montanhas, no acastelar das nuvens, no cintilar de semi-ocultos regatos, na fulguração de rios prateados, no repouso dos lagos apartados, na profundeza dos poços solitários, que refletem as estrelas. Ele a percebe nos cânticos das aves, na harpa do Éolo, no suspiro do vento noturno, na voz lamentosa da floresta, na ressaca que se queixa à praia, no fresco hálito dos bosques, no perfume da violeta, no cheiro voluptuoso do jacinto, no sugestivo odor que lhe chega, ao anoitecer, de longínquas ilhas ignotas, sobre oceanos sombrios, inexplorados e sem limites. Ele a possui em todos os nobres pensamentos, em todos os motivos ultra-terrenos, em todos os impulsos sagrados, em todas as ações cavalheirescas, generosas, abnegadas. Ele a sente, na beleza da mulher, na graça do seu andar, no brilho de seus olhos, na melodia de sua voz, na sua macia risada, no seu suspiro, na harmonia de suas vestes roçagantes. Ele a sente, profundamente, na ternura cativante da mulher, no seu ardente entusiasmo, na sua caridade gentil, na sua paciência mansa e piedosa, mas acima de tudo, ah! bem acima de tudo, ele se ajoelha diante dela, ele a cultua na fé, na pureza, na força, na majestade, totalmente divina, do amor feminino.

 

Deixais que conclua, recitando ainda outro breve poema, de caráter bem diverso de qualquer outro que já citei, antes. É de Motherwell e se chama “A Canção do Cavaleiro”. Com nossas idéias modernas e inteiramente racionais, a respeito do absurdo e da impiedade das guerras, não nos achamos, precisamente, naquele estado de espírito melhor adaptado e simpatizar com os sentimentos e dessa forma apreciar a real excelência do poema.

Para isto fazer plenamente, devemos identificar-nos, na imaginação, com a alma do velho cavaleiro:

 

“Um corcel sem rival na carreira!

De acerado metal uma espada!

Tudo o mais sobre  terra de nada

vale para a alma nobre e guerreira.

Do ginete de guerra os nitridos

de impaciência, o rufar do tambor,

do clarim o estridente clangor,

soam como celestes ruídos.

E o tropel dos soldados em massa,

quando o grito de guerra reboar,

descer anjos do céu talvez faça

e do inferno Satã se elevar!

Montai, todos! ó bravos! Montai!

Ponde os elmos e sede ligeiros!

Honra e Fama, da Morte os pregoeiros,

novamente a lutar conclamai!

Pranto amargo nos olhos não temos

quando a mão cinge os copos da espada,

nem, partindo, um suspiro daremos

pela que é a mais bela e adorada.

Fique a flauta o pastor a tocar

e o poltrão choramingue a gemer;

nós como homens devemos lutar,

como heróis é que iremos morrer!”

 

faetos ores elementos

 

 em breve terminaremos....