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CASIMIRO DE ABREU

Casimiro José Marques de Abreu - nasceu em Barra de são João, a 4 de janeiro de 1839 e faleceu em Nova Friburgo a 18 de outubro de 1860.


NO LAR

Terra da minha pátria, abre-me o seio 
Na morte - ao menos…                      . GARRETT.
I
Longe da pátria, sob um céu diverso,
Onde  sol como aqui tanto não arde,
Chorei saudades do meu lar querido
- Ave sem ninho, que suspira à tarde - 

No mar - de noite - solitário e triste
Fitando os lumes que no céu tremiam,
Ávido e louco no meus sonhos d'alma
Folguei nos campos que meus olhos viam.

Era pátria e família e vida e tudo,
Glória, amores, mocidade e crença,
E, todo em choros, vim beijar as praias,
Por que chorara nessa longa ausência.

Eis-me na pátria, no país das flores,
- O filho pródigo a seus lares volve,
E consertando as suas vestes rotas,
O seu passado com prazer revolve! - 

Eis meu lar, minha casa, meus amores,
A terra onde nasci, meu teto amigo,
A gruta, a sombra, a solidão, o rio,
Onde o amor me nasceu - cresceu comigo.

Os mesmos campos que eu deixei criança,
Árvore novas… tanta flor no prado!…
Oh! como és linda, minha terra d'alma,
- Noiva enfeitada para o seu noivado! -

Foi aqui, foi ali, além… mais longe,
Que eu sentei-me a chorar no fim do dia;
Lá veio o atalho que vai dar na várzea…
Lá o barranco por onde eu subia!…

Acho agora mais seca a cachoeira
Onde banhei-me no infantil cansaço…
- Como está velho o laranjal tamanho
Onde eu caçava o sanhaçú a laço!

Como eu me lembro dos meus dias puros!
Nada m'esquece… e esquecer quem há-de…
- Cada pedra que eu palpo, ou tronco, ou folha,
Fala-me ainda dessa doce idade!

Eu me remoço recordando a infância,
E tanto a vida me palpita agora,
Que eu dera, Oh! Deus! a mocidade inteira
Por um só dia do viver d'ourora!

E a casa?… as salas, estes móveis… tudo…
O crucifixo pendurado ao muro…
O quarto do oratório… a sala grande,
Onde eu temia penetrar no escuro!

E ali… naquele canto… o berço armado!
E minha mana, tão gentil, dormindo!
E mamãe a cantar-me histórias lindas
Quando eu chorava e a beijava rindo!

Oh! primavera! Oh! minha mãe querida!
Oh! mana! - anjinho que eu amei com ânsia - 
Vinde ver-me em soluços - de joelhos -
Beijando em choros este pó da infância!

II
Meu Deus! eu chorei tanto lá no exílio!
Tanta dor me cortou a voz sentida,
Que agora neste gozo de proscrito
Chora minh'alma e me sucumbe a vida!

Quero amor! quero vida! e longa e bela,
Que eu, Senhor! não vivi - dormi apenas!
Minh'alma, que s'expande e se entumece,
Despe o seu luto nas canções amenas.

Que sede que eu sentia nessas noites!
Quando beijo roçou-me os lábios quentes!
E, pálido, acordava no meu leito
- Sozinho - e órfão das visões ardentes!

Quero amor! quero vida!  aqui, na sombra,
No silêncio e na voz desta natura:
- Da primavera de minh'alma os cantos
Caso co'as flores da estação mais pura.

Quero amor! quero vida! os lábios ardem…
Preciso as dores dum sentir profundo!
- Sôfrego a taça esgotarei dum trago,
Embora a morte vá topar no fundo.

Quero amor! quero vida! Um rosto virgem,
- Alma de arcanjo que me fale amores,
Que ria e chore que suspire e gema
E doure a vida sobre um chão de flores.

Quero amor! quero amar - Uns dedos brancos
Que passem a brincar nos meus cabelos;
Rosto lindo de fada vaporosa,
Que dê-me vida e que me mate em zelos!

Oh! céu de minha terra - azul sem mancha - 
Oh! sol e fogo que me queima a fronte,
Nuvens douradas que correis no acaso,
Névoas da tarde que cobris o monte;

Perfumes da floresta, vozes doces,
Mansa lagoa que o luar prateia,
Claros riachos, cachoeiras altas,
Ondas tranqüilas que morreis na areia;

Aves dos bosques, brisas das montanhas,
Bentevis do campo, sabiás da praia,
- Contai correi, brilhai - minh'alma sem ânsias
Treme de gozo e de prazer desmaia!

Flores, perfumes, solidões, gorjeios,
Amor, ternura - modulai-me a lira!
- Seja um poema este ferver de idéias
Que a mente cala e o coração suspira.

Oh! mocidade! bem te sinto e vejo!
De amor e vida me transborda o peito.
- Basta-me um ano!… e depois… na sombra…
Onde tive o berço quero ter meu leito!

Eu canto, eu choro, eu rio, e grato e louco
Nos pobres hinos te bendigo, oh! Deus!
Deste-me os gozos do meu lar querido…
Bendito sejas! - vou viver co'os meus!


MEUS OITO ANOS

Oh souvenirs! printemps! aurores!
V. 	HUGO

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida,
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é - lago sereno,
O céu - manto azulado,
O mundo - um sonho dourado,
A vida - um hino d'amor!

Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia,
Naqueles doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado de estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
- Pés descalços, braços nus -
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azues!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

.......................................

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
- Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!


SAUDADES

Nas horas mortas da noite
Como é doce o meditar
Quando as estrelas cintilam
Nas ondas quietas do mar;
Quando a lua majestosa
Surgindo linda e formosa,
Como donzela vaidosa
Nas águas se vai mirar!

Nessas horas de silêncio,
De tristeza e de amor,
Eu gosto de ouvir ao longe,
Cheio de mágoa e de dor,
O sino do campanário
Que fala tão solitário
Com esse som mortuário,
Que nos enche de pavor.

Então - proscrito e sozinho -
Eu solto aos ecos da serra
Suspiros dessa saudade
Que no meu peito se encerra.
Esses prantos cheios de dores:
- Saudades - dos meus amores,
- Saudades - da minha terra!

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