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O CRIME DO PADRE AMARO
Em O crime do podre Amaro faz uma violenta crítica ao clero católico. Em Os Maios, descreve o mundo social lisboeta, sua ânsia de acesso à "civilização" e o deslumbramento por tudo que possa parecer chi-que, "ou podre de chique" (na expressão de uma das personagens). Na sua terceira fase, de maior maturidade artística, preocupou-se com os valores tradicionais da vida portuguesa (A ilustre casa de Ramires), a vida campestre (A cidade e as serras) e a meditação sobre o significado da existência humana.


O primo Basílio
Eça de Queirós

Fragmento 1
"Havia doze dias que Jorge tinha partido e, apesar do calor e da poeira, -Luísa vestia-se para ir à casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse não ha-via de gostar, não! Mas estava tão farta de estar só! Aborrecia-se tanto! De manhã- ainda tinha os arranjos, a costura, a toilette, algum romance... Mas de tarde!
À hora em que Jorge costumava voltar do ministério, a solidão parecia alargar-se em torno dela. Fazia-lhe tan-ta falta o seu toque de campainha, os seus passos no corredor!...
Ao crepúsculo, ao ver cair o dia, entristecia-se sem razão, caía numa vaga sentimentalidade: […] O que pensava em tolices então!" (cap. III)


Fragmento 2
"Servia, havia vinte anos. Como ela dizia, mudava de amos, mas não mudava de sorte. Vinte anos a dormir em cacifos, a levantar-se de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a sofrer os repelões das crianças e as más palavras das senhoras, a fazer despejos, a ir para o hospital quando vinha a doença, a esfalfar-se quando voltava a saúde!... Era demais! Tinha agora dias em que só de ver o balde das águas sujas e o ferro de engomar se lhe embrulhava o estômago. Nunca se acostumara a servir." […]

As antipatias que a cercavam faziam-na assanhada, como um círculo de espingardas enraivece um lobo. Fez-se má; beliscava crianças até lhes enodar a pele, e se lhe ralhavam, a sua cólera rompia em rajadas. Começou a ser despedida. Num só ano esteve em três casas. - Saía com escândalo, aos gritos, atirando as portas, deixando as armas todas pálidas, todas nervosas. […]
A necessidade de se constranger trouxe-lhe o hábito de odiar; odiou sobretudo as patroas, com um ódio irracional e pueril." (cap. III)


Eça de Queirós

Eça de Queirós é um marco na história da literatura portuguesa. Tendo iniciado sua trajetória literária sob influência romântica (0 mistério da estrada de Sintra), passou a escrever, na sua segunda fase, obras de forte conteúdo crítico sobre a burguesia e o clero, ora apenas realista, ora com elemen-tos naturalistas. Eça associou a critica social, o humor e a renovação estilística da língua portuguesa. Desta, soube aproveitar a linguagem coloquial, captando-lhe os recursos rítmicos e sintáticos. Produziu um painel da sociedade portuguesa, dos comportamentos femininos, das ambições masculinas, da corrupção do clero de então e minuciosas descrições de vários ambientes sociais lisboetas do fim do século XIX. Seu primeiro romance de grande êxito foi O primo Basílio, cujo tema é o adultério feminino.


1. Em O primo Basílio, Luísa, mulher fútil e leviana, numa viagem do marido, torna-se amante de Basílio. A empregada rouba-lhe algumas cartas comprometedoras e passa a chantageá-la. Leia o seguinte diálogo do romance:

- Seiscentos mil-réis! Onde quer você que eu vá buscar seiscentos mil-réis?
- Ao inferno! gritou Juliana. Ou me dá seiscentos mil-réis, ou tão certo como eu estar aqui, o seu marido há de ler os cartas!
Luísa deixou-se cair numa cadeira, aniquilada.
- Que fiz eu poro isto, meu Deus? Que fiz para isto?
Juliana plantou-se-lhe diante, muito insolente.
- A senhora diz bem, sou uma ladro, é verdade; apanhei o corto no cisco, tirei os outras do gavetão. É verdade! E foi poro isto, para mas pagarem! - E troçando, destroçando o xale, numa excitação frenéti-ca: - Não que a minha vez havia de chegar! Tenho sofrido muito, estou farto! Vá buscar o dinheiro onde quiser Nem cinco réis de menos! Tenho passado anos e anos a rolar-me! Para ganhar meio moeda por mês, estofo-me a trabalhar de madrugada até à noite, enquanto a senhora está de pânria! É que eu levanto-me às seis horas do manhã - e é logo engraxar, varrer, arrumar, labutar e a senhora está muito regalada em vale de lençóis, sem cuidados, nem canseiras. Há um mês que me ergo com o dia, pra meter em gomo, passar, engomar! A senhora sujo, sujo, quer ir ver quem lhe parece, aparecer-lhe com tafularias por baixo, e cá está a negra, com apontada no coração, a motor-se com o ferro na mão! E o senhora, são passeias, tipóios, boas sedas, tudo o que lhe apetece - e a negra? A negra a esfalfar-se!
Luísa, quebrado, sem forço de responder encolhia-se sob aquela cólera como um pássaro sob um chuveiro. Juliana ia-se exaltando com a mesma violência da sua voz. E as lembranças das fadigas, dos humilhações, vinham atear-lhe a raiva, como achas numa fogueira.
- Pois que lhe parece? - exclamava. - Não que eu coma os restos e o senhora os bons-bocados! Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma goto de vinho, quem mo dá? Tenho de o comprar! A senhora já foi ao meu quarto? É uma enxovia! A percevejada é tanta que tenho de dormir quase vestida! E o senhora se sente uma mordedura, tem a negra de desaparafusara cama, e de a catar frincha por frin-cha. Uma criada! A criada é o animal. Trabalha se pode, se não rua, poro o hospital. Mas chegou o minha vez e dava palmados no peito, fulgurante de vingança. Quem mondo agora, sou eu!

 


AS DUAS ROSAS

Sobre se era mais formosa 
A vermelha ou branca rosa,
Ardeu séculos a guerra
	Em Inglaterra.

Paz entre as duas, jamais!
Reinar ambas as rivais,
Também não;  e uma ceder
	Como há de ser?

Faltei eu lá na Inglaterra
P'ra acabar com a guerra.
Ei-las aqui bem iguais,
	Mas não rivais.

Atei-as em laço estreito:
Que artista fui, com que jeito!
E oh! Que lindas são, que amores
	As minhas flores!

Dirão que é cópia; - bem sei:
Que todo inteiro o roubei
Meu pensamento brilhante 
	Do teu semblante…

Será. Mas se é tão belo
Que lhe dêem esse modelo,
Do meu quadro, na verdade,
	Tenho vaidade.

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