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GUERRA JUNQUEIRO

Abílio Manuel -- nasceu em 1850. Estudou os preparativos no Porto e matriculou-se depois, em Direito, na Universidade de Coimbra, onde veio a formar-se em 1873, e onde ainda conviveu com parte da geração que acompanhava Anthero de Quental. Depois da formatura exerce os cargos de secretário geral dos governos civis de Angra do Heroísmo e de Viana de Castelo. Foi eleito deputado várias vezes. Tendo sido substituído na legislatura de 1891, retirou-se da política ativa e foi viver em sua província, onde se entregou aos trabalhos literários e à administração de sua propriedade. Depois da implantação da República, em cuja propaganda se bateu vivamente, foi nomeado ministro plenipotenciário de Portugal em Berna. Entre suas obras destacam-se: "Mystcae nuptiae", "Duas páginas dos 14 anos" (1864), "Vozes sem eco" (1867), "Batismo de amor" (1868), "Vitoria da França" (1870), "Espanha livre" (1873), "O crime"(1875), "Morte de D'João" (1874), "Velhice do Padre Eterno" (1885), "Pátria" (1896), "Os simples" (1892), "Oração ao pão" (1902), "Oração `aluz" (1903), "Amusa em férias" (1890), "Poesias disperssas" (1920), "O monstro alemão", "A execução de uma quadrilha", "Prosas dispersas" (1921), etc. Morreu em 1923.

COMO SE FAZ UM MONSTRO

Ele era nesse tempo uma criança loira
Vivendo na abundância agreste da lavoira,
Ao vento, à chuva, ao sol, pastoreando as gados,
Deitando-se ao luar nas pedras dos eirados,
Atravessando à noite os solitários montes,
Dormindo a boa sesta ao pé das claras fontes,
Trepando aos pinheirais, à fragas, aos barrancos,
No rijo e negro cravando os dentes brancos.
Radiosos como a aurora e bom como a alegria
Quando no azul do céu cantava a cotovia
Aos primeiros clarões vibrantes da alvorada
Transportava ao casebre o leite da manada,
Acordando, a assobiar e a rir pelos caminhos,
Os lebréus nos portais e as aves nos seus ninhos;
E à tarde, quando o sol, extraordinário Rubens,
Na fantasmagoria esplêndida das nuvens,
Colorista febril, lança, desfaz, derrama
O topázio, o rubi, a prata; o oiro, a chama,
Ele ia então sozinho, alegre, intemerato
Conduzindo a beber ao trêmulo regato,
A golpes de verdasca e gritos estridentes,
Num ruidoso tropel, os grandes bois pacientes.
O seu olhar azul de limpidez virtuosa,
Onde brilhava a audácia heróica e valorosa,
A candura infantil e a inteligência rara;
O timbre da sua voz imperiosa e clara,
A linha do seu corpo altivamente reta,
Tudo lhe dava o ar soberbo dum atleta
Em miniatura.

IDEAL NEGATIVO

Lama, dissolução, fermentação de tudo,
Esterquilínio podre, esterquilínio mudo,
Onde a Vida repousa em embrião, em germe,
Que deseja tu ser, ó lama infecta?
Verme.

E tu ao ver do mar soturno, em que te banhas,
A verdura que alegra os prados e as montanhas,
Ao ver da terra o vasto e embalsamado abril,
Que desejas tu ser, monstro do mar?
Reptil.

E tu, grilheta viva a contemplar de rastros,
Florestas, vagalhões, nuvens crateras, astros,
O que desejas tu, em teu sonho idealista?
- A asa para o vôo e a mão para a conquista.

Quadrúmano  gorilha, ourango, chimpanzé,
Quase lobos no chão, quase gente, de pé!
Ambíguos animais de olhar doce e feroz,
Adão inda com cauda, almas inda sem voz,
Dizei que aspirações longínquas vos consomem?
Qual é o teu ideal, gorilha hirsuto?
É o homem.