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GUILHERME DE ALMEIDA

AS DUAS MÃOS

Mão côncava de quem pede,
mão convexa de quem dá:
o medo que se tem é de
saber o que nelas há.

Um rico desejo como
numa concha a pérola? Ou
um coração: rubro pomo
sob a folha que murchou?

Mão côncava e mão convexa.
Justapostas como dois
hemisférios: destes é que se há
de formar o mundo, pois

que, girando junta, acho
que, volta e meia, a mão em 
cima é a que não tem, e em baixo 
é que fica a mão que tem.


Soneto xviij

Alma que de meu corpo te apartaste,
corpo que de minh'alma te partiste,
e que dest'arte em dois me repartiste,
e numa só desdita a ambos juntaste!
Qual vida é igual à morte que inventaste?
Qual morte mais do que tal vida é triste?
Que humano ser tão desumano existe
que haja sua igualdade em tal contraste?
Ante a razão por que a razão cativa
no próprio cativeiro acha conforto,
e às vezes se abandona, outras se esquiva,
chego a quedar-me ante mim mesmo absorto,
alma sem corpo, que não sei se é viva,
corpo sem alma, que não sei se é morto.

SE…
"… no cantar que diz que fez por mi, se o por min fez". 
(Pedr'Amigo de Sivilha)

Desse amor que diz que tem
por mim, se por mim o tem;

desse bem que diz que faz
a mim, se a mim mesmo o faz;

desse mal que diz que vem
de mim, se é de mim que vem;

dessa fé que diz que põe
em mim, se em mim é que a põe:

- disso o que é que há de ficar
sem mim, se sem mim ficar?

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