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HOLDERLIN

João Cristiano Frederico HOLDERLIN nasceu em 1770. Sobre sua obra existe diminuta literatura em português, recomendando-se entretanto o ensaio que a seu respeito escreveu Otto Maria Carpeaux. Revistas pelo mesmo autor, e da autoria de Manuel Bandeira, são as traduções aqui reproduzidas. Holderlin deixou entre outros trabalhos a novela "Hyperion" e traduções de Antígona e Édipo de Sófocles. Morreu louco, em 1843, e seus poemas foram publicados em 1826, sob o título de "Lyrische Gedichte".
METADE DA VIDA

Heras amarelas 
E rosa silvestres
Da paisagem sobre a
Lagoa.

Ó cisnes graciosos,
Bêbedos de beijos,
Enfiando a cabeça
Na água santa e sóbria!

Ai de mim, aonde, se 
É inverno agora, achar as 
Flores? e aonde
O calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios: ao vento
Tatalam bandeiras
(Trad. de Manuel Bandeira)

PÔR DO SOL

Onde estás? A alma anoitece-me bêbada,
De todas as tuas delícias; um momento
Escutei o sol, amorável adolescente,
Tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite.

Ecoavam ao redor dos bosques e as colinas;
Ele no entanto já ia longe, levando a luz
A gentes mais devotadas
Que o homem ainda.
(Trad. de Manuel Bandeira)


AS PARCAS

Mais um verão, mais um outono, ó Parcas,
Para amadurecimento do meu canto 
Peço me concedais. Então saciado
Do doce jogo, o coração me morra.

Não sossegará no Orco a alma que em vida
Não teve a sua parte de divino.
Mas se em meu coração acontecesse
O sagrado, o que importa, o poema, um dia:

Teu silêncio entrarei, mundo das sombras,
Contente, ainda que as notas do meu canto
Não me acompanhem, que uma vez ao menos
Como os deuses vivi, nem mais desejo.
(Trad. de Manuel Bandeira)


OUTRORA E HOJE

Meu dia outrora principiava alegre;
No entanto à noite, eu chorava. Hoje, mais velho,
Nascem-me em dúvida os dias, mas
Findam sagrada, serenamente.
(Trad. de Manuel Bandeira)

FANTASIA DO CREPÚSCULO

Descansa o lavrador à sua porta
E vê o fumo do lar subir contente.
Hospitaleiramente ao caminhante
Acolhem os sinos da aldeia.

Voltam os marinheiros para o porto.
Em longínquas cidades amortece
O ruído dos mercados; na latada
Brilha a mesa para os amigos.

Ai de mim! de trabalho e recompensa
Vivem os homens, alternando alegres
Lazer e esforço: por que só em meu peito
Então nunca dorme este espinho?

No céu da tarde cheira a primavera;
Rosas florescem, sossegado fulge
O mundo das estrelas. Oh! levai-me
Purpúreas nuvens, e lá em cima

Em luz e ar se me esvaia amor e mágoa!
Mas, do insensato voto afugentado,
Vai-se o encanto escurece, e, solitário
Como sempre, fico ao relento.

Vem, suave sono! Por demais anseia
O coração; um dia enfim te apagas,
Ó mocidade inquieta e sonhadora!
E chega serena a velhice.
(Trad. de Manuel Bandeira)

CANTO DO DESTINO-HIPERION

No mole chão andais
Do éter, gênios eleitos!
Ares divinos
Roçam-vos leve
Como dedos de artista
As cordas sagradas.

Como adormecidas
Criancinhas, eles
Respiram. Floresce-lhes
Resguardado o espírito
Em casto botão;
E os olhos felizes
Contemplam em paz
A luz que não morre.

Mas, aí! Nosso destino
É não descansar. 
Míseros os homens
Lá se vão levados
Ao longo dos anos
De hora em hora como
A água, de um penhasco
A outro impelida.
Lá somem levados
Ao desconhecido.
(Trad. de Manuel Bandeira)


POEMA

Maduras estão, em fogo imergidas, cozidas
E na terra provadas, as frutas. É força
Que tudo penetrem, à guisa de cobras,
Profeticamente e sonhando nas 
Colinas do céu. Muita coisa
Devemos guardar como um fardo
De lenha nos ombros. Entanto
São maus os caminhos. Indóceis
Cavalos, trabalham
Elementos e as velhas
Leis da terra. Ah, e sempre ao 
Sem peias vai uma saudade. Contudo
Muito há que guardar. É mister a constância.
Mas nós não queremos ver nem
Para diante e nem para trás! Só queremos
É que nos embalem da mesma maneira
Que o lago num bote.
(Trad. de Manuel Bandeira)

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