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TOMAS ANTÔNIO GONZAGA

"Marília de Dirceu" é a lírica amorosa mais lida da língua portuguesa, pois nenhum outro poema, a não ser "Os Lusíadas", alcançou tantas edições. História dos amores do poeta com Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a meiga Marília, este libro reflete com sentimentos e arte os enlevos amorosos de uma amante sensível e terno, de um amante que não recua nem mesmo diante dos corriqueiros incidentes domésticos, incidentes que são, para poeta, fontes puras da mais alta poesia Nascido em Portugal, na cidade do Porto, em 1744, do pai brasileiro e mãe portuguesa, filha de inglês. Gonzaga veio para o Brasil aos oito anos de idade, tendo regressado a Portugal para estudar na Universidade de Coimbra nove anos depois. Bacharelando-se em 1768, exerceu o cargo de juiz de fora em Beja até a sua remoção para o Brasil como ouvidor e procurador de defuntos e ausentes, na comarca de Vila-Rica. Fora nomeado desembargador da Relação da Baía e estava noivo de Marília quando, denunciado por Joaquim Silvério dos Reis, foi preso e processado como um dos implicados na Conjuração Mineira. Transportado para a ilha das Cabras, dali saiu desterrado, em maio de 1792, para Moçambique, onde terminou seus dias, no ano de 1810. Rodrigues Lapa esclarece que o poeta em Moçambique advogou com êxito, exercendo também o cargo de Procurador da Coroa e da Fazenda. Um ano antes de falecer fora nomeado Juiz da Alfândega de Moçambique. Isso destrói a lenda de que ele, no exílio, teria terminado seus dias entre miséria e a loucura.

 

NESTA TRISTE MASMORRA…

Nesta triste masmorra,
de um semivivo corpo sepultura, 
inda, Marília, adoro
a tua formosura.
Amor na minha idéia te retrata;
busca extremoso, que eu assim resista
à dor imensa, que me cerca e mata.

Quando em meu mal pondero,
então mais vivamente te diviso:
vejo o teu rosto e escuto
a tua voz e riso.
Movo ligeiro para o vulto os passo:
eu beijo a tíbia luz em vez de face,
e aperto sobre o peito em vão os braços.

Conheço a ilusão minha;
a violência da mágoa não suporto;
foge-me a vista e caio,
não sei se vivo ou morto.
Enternece-me Amor de estrago tanto;
reclina-me no peito, e com mão terna
me limpa os olhos do salgado pranto.

Depois que represento 
por largo espaço a imagem de um defunto
movo os membros, suspiro,
e onde estou pergunto.
Conheço então que Amor me tem consigo;
ergo a cabeça, que inda mal sustento,
e com doente voz assim lhe digo:

- Se queres ser piedoso,
procura o sítio em que Marília mora,
pinta-lhe o meu estrago,
e vê, Amor, se chora,
se, a lágrimas verter, a dor a arrasta.
Uma delas me traze sobre as penas,
e para alívio meu só isto basta.
TU NÃO VERÁS MARÍLIA, CEM CATIVOS…

Tu não verás, Marília, cem cativos
tirarem o cascalho e a rica terra,
ou dos cercos dos rios caudalosos,
ou da mina da serra.

Não verás separar ao hábil negro
do pesado esmeril a grossa areia,
e já brilharem os granetes de oiro
no fundo da bateia

Não verás derrubar as virgens matos,
queimar as capoeiras inda novas,
servir de adubo à terra a fértil cinza,
lançar os grãos nas covas.

Não verás enrolar negros pacotes
das secas folhas do cheiroso fumo;
nem espremer entre as dentadas rodas
da doce cana o sumo.

Verás em cima da espaçosa mesa
altos volumes de enredados feitos;
ver-me-ás folhear os grandes livros,
e decidir os pleitos.

Enquanto revolver os meus consultos,
tu me farás gostosa companhia,
lendo os fastos da sábia, mestra História,
e os cantos da poesia.

Lerás em alta voz, imagem bela;
eu, vendo que lhe dás o justo apreço,
gostoso tornarei a ler de novo
o cansado processo.

Se encontrares louvada uma beleza,
Marília, não lhe invejes a ventura,
que tens quem leve à mais remota idade 
a tua formosura.

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