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VALÉRY


Paul Ambroise VALÉRY, nasceu em 1871. Freqüentou a escola local de Cette e passava as férias na Itália, geralmente em Gênova.
Em 1884 seus pais se mudaram para Montpellier, em cuja universidade estudou Direito. Em 1892 passou a residir em Paris. Seu primeiro livro se intitulou "L'introduction à la méthode de Leonard de Vinci". Em 1896 publicou "La soiree avec M. Teste". Após longo período de silêncio, durante o qual ocupou diversas funções administrativa e trabalhou, como jornalista manônimo, na Agência Havas, voltou às letras com o volume de (…) " (1917), que logo o impôs à consideração da crítica e à simpatia do público, volume a que vieram juntar-se "Albun de vers anciens (1920); "Cimetiere marin"(1920; Charmes (1921) e uma coleção de Poesias completas aparecidas em 29 31. Entre suas obras em prosa figuram: "Variétes"(1919-30 – 2' série) "L'ame et la danse"(1924);


O CEMITÉRIO MARINHO

Esse teto tranqüilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
Um longo olhar sobre a calma dos deuses!
Que lavor puro de brilhos consome
Tanto diamante de indistinta espuma
E quanta paz parece conceber-se!
Quando repousa sobre o abismo um sol,
Quando repousa sobre o abismo um sol,
Límpidas obras de uma eterna causa,
Fulge o Tempo e o Sonho é sabedoria.

Tesouro estável, templo de Minerva,
Massa de calma e nítida reserva,
Água franzida, olho que em ti escondes
Tanto de sono sob um véu de chama,
- ó meu silêncio!… um edifício na alma,
Cume dourado de mil telhas, Teto!

Templo do Templo, que um suspiro exprime,
Subo a este ponto puro e me acostumo,
Todo envolto por meu olhar marinho.
E como aos deuses dádiva suprema,
O resplendor solar sereno esparze
Na atitude um desprezo soberano.

Como em prazer o fruto se desfaz,
Como em delícia muda sua ausência
Na boca onde perece sua forma,
Aqui aspiro meu futuro fumo,
Quando o céu canta à alma consumida
A mudança das margens em rumor.

Belo céu, vero céu, vê como eu mudo!
Depois de tanto orgulho e tanta estranha
Ociosidade –cheia de poder –
Eu me abandono a esse brilhante espaço,
Por sobre as tumbas minha sombra passa
É a seu frágil mover-se me habitua.

A alma expondo-se às tochas do solstício,
Eu te afronto, magnífica justiça
Da luz, da luz armada sem piedade!
E te devolvo pura à tua origem:
Contempla-te!… Mas devolver a luz
Supõe de sombra outra metade morna

Oh, para mim, somente a mim, em mim,
Junto ao peito, nas fonte do poema,
Entre o vazio e o puro acontecer,
De minha interna grandeza o eco espero,
Sombria, amarga e sonora cisterna
- Côncavo som, futuro, sempre, na alma.

Sabes tu, prisioneiro das folhagens,
Golfo roedor de tão fino gradis,
- Claros segredos para os olhos cegos -
Que corpo a um fim ocioso me compele,
Que fronte o atrai a tal rincão de ossadas?
Um lampejo aqui pensa em meus ausentes.

Sacro, encerrando um fogo sem matéria,
Pouca de terra oferecida à luz,
Prezo este sítio, que dominam tochas,
Onde mármores tremem sobre sombras.
O mar lá dorme, fiel, sobre meus túmulos.

Cadela esplêndida, afugenta o idólatra!
Quando, sorriso de pastor, sozinho
Apascento carneiros misteriosos
- Branco rebanho de tranqüilos túmulos.
Afasta dele as pombas temerosas
Os sonhos vãos, os anjos indiscretos.

Aqui vindo, o futuro é indolência.
Nítido inseto escarva a sequidão;
Tudo queimado está desfeito e no ar
Se perde em não sei que severa essência,
Faz-se a amargura doce e claro o espírito.

Os mortos estão bem, sob esta terra
Que os aquece e resseca seu mistério.
O meio-dia no alto, o meio-dia
Quedo se pensa em si e a si convém.
Fronte completa e límpido diadema,
Eu sou em ti recôndita mudança!

Eu somente eu, contenho os teus temores!
Meus pesares, limitações e dúvidas
São a falha de teu grande diamante…
Em sua noite grávida de mármores,
Entanto, um povo errante entre as raízes
Tomou já teu partido, lentamente.

Dissolveu-se na mais espessa ausência;
Bebeu vermelho barro a branca espécie;
Passou às flores o Dom de viver.
Dos mortos, onde as frases familiares,
A arte pessoa, as almas singulares?
Tece a larva onde lágrimas nasciam.

O riso agudo de afagadas jovens,
Olhos e dentes, pálpebras molhadas,
O seio ousado desafiando o fogo,
Sangue a brilhar nos lábios que se rendem.
Últimos dons e dedos que os defendem
- Tudo se enterra e ao jogo outra vez volta.

E tu, grande alma, acaso um sonho esperas,
Despido, então, das cores de mentira
Que a estes meus olhos a onda e o ouro mostram?
Cantarás, quando fores vaporosa?
Tudo flui! Porosa é minha presença;
A sagrada impaciência também morre.

Magra imortalidade negra de ouro,
Consoladora com horror laureada,
Que seio maternal fazes da morte
- O belo engano, a astúcia mais piedosa!
Quem não conhece e quem não repudia
Esse crânio vazio, o riso eterno?

Pais profundos, cabeças desertadas,
Que sob o peso de tantas pazadas
Terra sois, confundindo os nossos passos!
O verdadeiro verme, irrefutável,
Não para vós existe, sob a lousa
Ele de vida vive e não me deixa.

Amor, talvez? Talvez ódio a mim mesmo?
Seu dente oculto está de mim tão próximo
Que qualquer nome, acaso, lhe convém.
Que importa!… Ele vê, quer, sonha, ele toca:
Vivo de pertencer a este vivente

Zenão, cruel! Zenão, Zenão de Eléia!
Feriste-me com tua flecha alada,
Que vibra, voa e que não voa nunca.
O som engendra-me e a flecha me mata!
O sol… Ah, que sombra de tartaruga
Para a alma, Aquiles quedo e tão ligeiro!

Não, não!… De pé! No instante sucessivo!
Rompe, meu corpo, a forma pensativa!
Bebe, meu seio, o vento que renasce!
Esta frescura a exalar-se do mar
A alma devolve-me… Ó poder salgado!
Corramos à onda para reviver!

Sim, grande mar dotado de delírios,
Pele mosqueada, clâmide furada
Por incontáveis ídolos do sol,
Hidra absoluta, ébria de carne azul.
Que te mordes a fulgurante cauda
Num tumulto ao silêncio parecido,

Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
O sopro imenso abre e fecha meu livro,
A vaga em pó saltar ousa das rochas!
Voai, páginas claras, deslumbradas!
Rompei, vagas, rompei contentes o
Teto tranqüilo, onde bicavam velas!
(Trad. de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correa)

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