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VICTOR HUGO

 

VICTOR Marie HUGO nasceu em 1802. Filho de um dos generais de Napoleão, desde muito criança acompanhou o pai de cidade em cidade por quase toda a Europa, demorando-se especialmente na Espanha e na Itália, cujas escolas freqüentou e onde passou a maior parte da mocidade. É de 1822 o primeiro volume de versos que publicou – "Odes" – ao qual se seguiram o romance: "Hans de Islândia" (1823) e mais um volume de "Novas odes" (1824), cuja coleção tomou, em 1826, numa terceira edição, o título de "Odes e baladas". Vieram depois: "Orientais" (!828), "Folhas de outono" (1831), "Vozes interiores" (1837), "Castigos" (1853), sátiras líricas contra Napoleão II, "Contemplações" (1856), "Lenda dos séculos" (1877-1883). Ao teatro deu: "Cromwell" (1827), "Hernâni" (1830), "Marion Delorme" (1831), "O rei diverte-se" (1832), cuja representação foi proibida por Luís Felipe, logo após a estréia, mas que 50 anos mais tarde foi levada à cena sob uma tempestade de aplausos; "Lucrécia Bórgia", "Ruy Blas", "Os Burgraves" (1843), etc. Escreveu os seguintes romances: "Nossa Senhora de Paris" (1831), "Os miseráveis" (1862), "Trabalhadores do mar" (1865), "O homem que ri" (1868), "Noventa e três" (1874). São ainda dignos de destaque, entre as restantes obras o poemeto "O último dia dum condenado" (1829), "O ano terrível" (1872), "A arte de ser avô" (1877) e a "História de um crime", na qual relata o golpe de Estado de 2 de dezembro. Membro da Academia francesa em 1941 e par de França em 1845, depois da revolução de 1848 tomou parte ativa no movimento político de seu país, tornando-se na tribuna o mais eloqüente defensor da liberdade e o mais intransigente adversário de Napoleão III; isto o levou a ser proscrito logo após o golpe de Estado de 02 de dezembro, regressando do exílio somente 18 anos depois, quando da queda do Império. Morreu em 1885.

 



BOOZ ADORMECIDO

Deitara-se Booz, à fadiga prostrado.
Na eira, ao labor da ceifa andara todo o dia;
fez o leito depois no sítio costumado.
Dos alqueires de trigo ao pé Booz dormia.

Possuía  o ancião a mais farta cultura
de cevada e trigais, uma riqueza enorme;
e contudo a sua alma era simples e pura,
e a sua consciência à justiça conforme.

Lembrava a sua barba um argentado arroio
de abril. Não sendo avaro o bom velho, se via
acaso uma infeliz a respigar no joio:
acaso uma infeliz a respigar no joio:
- "Deixem cair, um pouco, as espigas…" dizia.

Nunca esse homem trilhou por oblíquos caminhos.
E era consigo sempre a cândida pureza.
Vestiam-no de branco a probidade e os linhos.
E os seus sacos de grãos, abria-os à pobreza.

Booz era o bom chefe a quem os demais louvavam.
Dava a mancheia os bens que uma alma terna expande
E as mulheres, Booz mais do que a um moço, olhavam,
Pode o jovem ser belo: é belo o velho, e grande.

Pois o velho, que ao berço originário tende,
Deixa o que passa aqui pelo que eterno dura.
Se uma chama no olhar da mocidade esplende,
nos olhos do ancião a luz é que fulgura.

Ora, entre os seus, Booz, nessa noite, dormia.
Das medas, como junto a algum escombro estranho,
Perto, um caifeiro de outro lado se estendia.
Deitavam-se. E isto foi pelos tempos de antanho.

Por chefe, os  de Israel a um sábio veneravam.
E a terra, onde surpreso o homem, jornada finda
tremia ao ver os pés de monstros que a marcavam,
aquosa do dilúvio estava, e mole ainda.

Tal qual Jacó dormiu, como Judite, outrora,
sob as folhas Booz jazia. De repente,
sobre a sua cabeça abriu o céu, a essa hora;
e eis que um sonho baixou então, à sua frente.

E esse sonho foi tal, que um carvalho gigante
viu Booz do seu ventre erguer-se – e o azul tocava.
Por ele ia uma raça, a escalá-lo anelante:
cantava embaixo um rei, no alto um deus expirava,

E Booz murmurou com a voz da sua alma:
"- Poderá ser, Senhor, se há tanto que me abstenho?
Por oitenta anos conto uma existência calma,
não possuo um só filho, e já mulher não tenho.

"Aquela que dormiu comigo, nesta vida,
pelo vosso trocou, ó Senhor, o meu leito;
sinto que lhe pertenço, e tenho-a a mim unida
sempre, ela semiviva e eu a meio desfeito.

"Pois vai nascer de mim uma raça? Ó virtude!
Posso eu gerar, e ter de uma tal prole a glória?
Triunfa, ao despertar da aurora, a juventude
e sai da noite o sol, como de uma vitória.

"Mas velho, tremo assim com a bétula ao vento.
Sou viúvo, sozinho: o céu já se fez turvo.
Para a cova, meu Deus, como um boi que, sedento,
para a água a testa pende, eu a minha alma curvo".

Assim falou num sonho extasiadamente
a Deus volvendo o olhar que o sonho escurecia:
e como o cedro à base uma rosa não sente,
Booz uma mulher a seus pés não sentia.

Viera ter ali Rute, uma boabita,
E reclinada junto a Booz, tendo o seio
nu quedou-se, a esperar daquele que dormita
e há de acordar, o ardor de um breve bruxuleio.

Não sabia Booz que uma mulher estava 
ali perto. Nem Rute o que Deus lhe queria…
Das abróteas aflante o eflúvio se evolava
e a aura da noite no ar de Galgalá fluía.

Nupcial era a sombra augusta e majestosa.
Voavam anjos entre o céu e a gleba rasa,
pois que às vezes se via, a errar na noite umbrosa
qualquer cousa de azul que parecia uma asa.

Surdas, ao respirar de Booz, como fosse
igual o ritmo, na erva as fontes mal se ouviam.
Passava então o mês em que a Natura é doce
Das colinas ao cimo os lírios se erigiam.

Rute cismava, e Booz dormia: a campainha
dos rebanhos vibrava: a relva, toda escura.
Do firmamento, imensa, uma bondade vinha.
Iam beber, nessa hora, os leões a planura.

Ur e Jerimadé a longe repousavam.
Profundo e negro, o céu. Brilhando no ocidente,
Entre as flores da treva – os astros que apontavam – 
Rute olhava, a subir fino e claro o Crescente:

e imaginava, o rosto entre os seus véus sombrios,
que deuses, que segador do sideral tesouro
abandonara assim, à luz do eterno estio,
sobre o estrelado campo, aquela fouce de ouro.
(Trad. de Eduardo Guimaraens)
DEUS SONHA

O dia acorda. Deus, por uma fresta
Das nuvens a espreitar, ri-se. A floresta,
O campo, o inseto, o ninho sussurrante,
A aldeia, o sol que tinge a serrania…
Tudo isso acorda, quando acorda o dia
No fresco banho de ouro do Levante.

Deus sonha. Vasa os olhos d'água; pica
As artérias da terra; os lis fabrica,
E da matéria sonda o fundo ovário.
Pinta as rosas de branco e de vermelho,
E faz das asas vis do escaravelho,
A surpresa do mundo planetário.

Homens! As férreas naus de velas largas
Monstros revéis, formidolosas cargas,
Do bruto oceano arfando as insolências
Extenuando os ventos, e nos flancos.
Largo enxame a arrastar de flocos brancos
De escuma, e raios e fosforescências…

Os estandartes de arrogantes pregas;
As batalhas, os choques, as refregas:
Náuseas de fogo de canhões sangrentos:
Feroz carnificina de ferozes
Batalhões – bando espesso de albatrozes
De asa espalmada e aberta aos quatro ventos…

Comburentes, flamívomas bombardas,
Ígnea selva de canos de espingardas,
Estampidos, estrépitos, clangores,
E, bêbedo de pólvora e fumaça,
Napoleão que galopando passa,
Ao rufar de frenéticos tambores

A guerra, o saque, as convulsões, o espanto;
Sebastopol em chamas, de Lepanto
A vau de lanças e clarins repleto…
Homens! Tudo isso, enquanto recolhido
Deus sonha, passa e soa ao seu ouvido
Como o rumor das asas de um inseto!
(Trad. de Raimundo Correia)
OH! NÃO INSULTEIS…

Oh! não insulteis nunca uma mulher perdida!
Quem sabe qual o transe em que ela foi vencida?
Quem sabe se foi longo o seu combate rude,
Entre as mil privações soprou com violência,
Quem já viu a mulher, que prendia a inocência
Nas pequeninas mãos cruzadas sobre o seio,
Não ir no turbilhão, gritando, com receio?…
Tal a gota de chuva, - pérola da rama: -
Brilha ao passar do vento, oscila e cai na lama!

A culpa é nossa; é tua, ó rico! É do teu ouro!
Mas, no lodo é que o mar esconde o seu tesouro…
Para que o pingo d'água erga-se da poeira,
Com o vivo esplendor e a limpidez primeira,
Já que as transformações se operam p'ra melhor,
Dai-lhe um raio de sol! Dai-lhe um raio de amor!
(Trad. de Múcio Teixeira)
A AMOR
Pois que a beber me deste em taça transbordante,
E a fronte no teu colo eu tenho reclinado,
E respirei da tu'alma o hálito inebriante,
- Misterioso perfume à sombra derramado;

Visto que te escutei tanto segredo, tanto!
Que vem do coração, dos íntimos refolhos,
E tive o teu sorriso e enxuguei o teu pranto,
- A boca em minha boca e os olhos nos meus olhos;

Pois que um raio senti do teu astro, querida,
Dissipar-me da fronte as densas brumas frias,
Desde que vi cair na onda da minha vida
A pétala de rosa arrancada aos teus dias…

Posso agora dizer ao tempo, em seus rigores:
- Não envelheço, não! Podeis correr, sem calma,
Levando na torrente as vossa murchas flores
Ninguém há de colher a flor que eu tenho n'alma!

Podeis com a asa bater, tentando, sem efeito,
A taça derramar em que me dessedento:
Do que cinzas em vós há mais fogo em meu peito;
E, em mim, há mais amor que em vós esquecimento!
(Trad. de Álvaro Reis)
DEPOIS DA BATALHA

Meu pai, aquele herói de riso sempre aberto
Seguido de um "hussard" que estimava, decerto,
Mais que os outros, por ser um bravo ante a metralha,
Percorria, a cavalo, após uma batalha,
O campo do combate envolto pelo véu
Da noite; nisto um ruído a escuridão rompeu:
Era um belo espanhol do exército vencido
Que, à beira do caminho, exânime, vencido
Gemia agonizante, exausto e sem socorro,
E que a custo dizia: "Água! Água que eu morro!"
Meu pai magoado, estende ao seu "hussard", então,
E diz-lhe: - "Toma lá, dá-lha ao pobre ferido". 
De repente, no instante em que o "hussard", pendido,
O ia socorrer, ele, um tipo de mouro
Que inda agarrava a arma, arremessa um pelouro.
À fronte de meu pai, exclamando: "caramba!" 
Tão perto lhe zune o tiro, que descamba
O chapéu, e o cavalo acua e se retrai.
"Vá, dá-lhe de beber, embora!" diz meu pai.
(Trad. de Silva Ramos)

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